CHARLA IX

Farejando a Toca das Mulitas

 Juarez Cesar Fontana Miranda

Buenas Gauchada!

- Ô Eleutério, lá pelo meio da tarde tu vai me dá uma mão na lida do campo.

- Ué, tu não te garante más solito, tchê!

- Não é por aí, cuera véio. É porque eu tenho que deixar tudo arrumado, prá receber os parceiros que daqui a pouco tão boleando a perna prá sorver um chimarrão e dar uma proseada.

Mas, antes de botar o galpão em ordem, eu preciso dar uma tratada no terneiro da Malhada e vou aproveitar a olada para dar uma espichada de olho no piquete das ovelhas, prá ver se nenhum cusco andou lanhando o pelego de algum borrêgo.

- Entoncesbueno. Esses loco do Rodeio Estadual dexarum tudo num rebuliço só e eu é que tenho que trabaiá. Inté mais atrapaiado que cego em cancha de tava.

- Tchê, vê se deixa de resmungar. Vai lá no pasto, embuçala dois fletes e encilha o Rosilho prá mim e a Gatiada prá ti, porque tu vai me ajudar a dar uma passada de iodo, prá fazer a cura no umbigo do terneiro, que está arrinconado lá no potreiro dos maricás.

- Mas báh, faz tempo que eu ando só nas volta do galpão. Hoje eu vô pode dá um tiro de laço e ispichá meu doze braça, despos, invês de passá esses remédio moderno, eu vô isfregá é um tição de cortiça e dá um banho de óleo queimado no imbigo do ternero. Nos meu tempo de índio campero era assim que se fazia a cura do imbigo e não cum essa frescurinha de iodo.

A tarde, retovada de lida de campo, já ia a trote largo. Um andejo passarinho, que de galho em galho no capão de mato, há horas se empanturrava de coloradas pitangas, aproveitando o sopro do vento modorrento, espraiava nas coxilhas da pampa o seu estridente canto: bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi.

O tendéu feito pelo bico do maleva até parecia um sarau, atopetado de sonidos de uma milonga arrabalera, que em serenata recebia a boieira na culatra da tardesita e já ponteando no horizonte prá, loguito no más, se apear na boca da noite.

E assim, ainda sentindo no peito o coração entreverado com os ecos desta sinfonia crioula, que só quem vive lidando nas planuras campesinas deste pago consegue sentir, acabamos a faina e enveredamos para o corredor, de onde rumbeamos pros lados do galpão da estância.

Quando chegamos o Eleutério desencilhou o Rosilho e a Gatiada, soltou no potreiro e enquanto voltava, ligeirito como minhoca atravessando galinheiro, passou a mão numas toras de espinilho, prá dar início ao fogo de chão.

No meio da algazarra feita pela peonada que, também, se aprochegava pro galpão, o Eleutério, já municiado com aquele copo de extrato de tomate, cheio até os gorgumilhos de cachaça pitangueada, juntava os cepos e preparava a roda de chimarrão.

Enquanto a fumaça da lenha verde subia até a quincha do galpão, eu completei com água de cacimba, a cambona - que estava encostada no tição do pai de fogo – e fui preparar os avios do chimarrão ao mesmo tempo em que dava uma chegada na tulha dos chasques, para ver o que os parceiros haviam mandado para comentar na Charla.

Bueno, entre os chasques que chegaram, veio um do Centro Farroupilha de Tradições Gaúchas de Alegrete, que por meio do seu Patrão, Roberto Cariolato da Silveira, avisa que se encontram abertas as inscrições para o XVI Pealo da Poesia Campeira.

Os poetas que estiverem interessados em concorrer no referido concurso, poderão inscrever-se gratuitamente e deverão enviar suas poesias, por via postal, Até o dia 10 de julho de 2014, remetidas ao CTG, com endereço na Avenida Eurípedes Brasil Milano, nº 509, centro, CEP 97.542-280, Alegrete/RS.

Maiores informações poderão ser obtidas pelo telefone (55) 3422-3388 ou no site da entidade realizadora do evento: http://ctgfarroupilha.com.br.

- Tchê e aquela estória, que tu começou na Charla passada - da gauchada em marte – morreu? Me interpela um dos parceiros de mate.

- Que morreu que nada, tchê! Pois olha, o assunto que levantou a poeira do galpão surgiu a partir de uma postagem que, na metade do mês de abril, o Léo Ribeiro fez no seu blog.

No dito artigo, segundo o Jornal O Bairrista, um gaudério cabresteando uma nave, fabricada aqui na República dos Pampas, apeiará em marte nos próximos cinco anos.

Ainda, diz o texto que o projeto já está em um estágio bem adiantado, visto que a estrutura externa da nave já está pronta e a parte interna está nos acabamentos, estando o quarto de banho e a latrina totalmente finalizada.

Conforme o articulista, tanto o combustível quanto a boia espacial já estão definidos e ainda noticía que, entre centenas de voluntários da pátria, dez peonautas já foram selecionados e atualmente passam por um intenso treinamento de montagem do primeiro CTG intergalático da Via Láctea, mas que por questão de segurança nacional tudo corre por baixo do poncho.

A peonada, com o inusitado do ditame, tava quase se mijando de rir, quando o Eleutério – abancado num cepo empelegado e munheca grudada no gargalo de um garrafão com cinco litros de canha, atopetado de pitanga - mais enfiado que dedo de guri no nariz, foi se atravessando na charla da gauchada.

- Isso que o Léo botô lá no sitio dele é a mais pura das verdade.

- Não te faz, loco. Vai me dizer que tu acreditas nessa estória de ir de um planeta para outro, assim, no más?

- Mas báh, tchê, não só acredito como já andei inté proseando com esses tal de marciano.

- Entonces, agora destes prá mentir, Eleutério?

- Bueno, se tu não quisé acreditá...

 

Aprumando o Contra Mestre

Pos óia só, tchê! quase quarenta ano, lá por volta de março de 78, eu me acostei numa changa. Fiz uma empreitada prá alambrá umas quadra de campo na divisa de Pelotas com Canguçu, nas terra da veia Chicuta de Oliveira, lá pros lado do quarto distrito, entre a Crista do Galo e o Arroio Bunito.

Como a lida era prá más de mês, convidei o Ormiro, nego bão por demás e forte uma barbaridade, prá nós fazê uma pareia e adespos dividí a coima da faina.

Adespos de tudo acertado, ajuntei as minha traia de alambrador - pá, cavadera, lavanca, enxada, socador, serra, serrote, arco de pua, furadeira, formão, metro, machado, machadinha, torquês, alicate, martelo, esticador, grimpador, chave de alambrá e otras cositas más. Tamém ajuntei o farnel da boia: arroz, fejão, farinha, charque, gajeta cabeça de anjo, sal, rapadura, erva e meio barril de cachaça.

Infiei tudo na carreta bolante, que já tava aperparada, ajoujei a junta de boi e de madrugadita, adespos de matiá um amargo trançudo, se mandemo a lá cria. O Ormiro, com a picana, no pé da carreta e eu imbodocado no lombo da Tobiana, uma potranca curtida de chão, de quexo duro, mas boa de trote e de lambuja, na sombra do flete, ia o Porquera, cusco bom de oreia e faro de tatuzero.

Já fazia uns quinze dia que nós tava acampado e ainda tinha umas seiscentas braça de madera prá apruma – angico, prá moirão mestre; cabriúva, prá contra mestre e aroera,  pras trama –e mais umas dezoito légua de arame – o Belga 800 – prá nós ispichá e entregá o alambrado de doze fio, prontito no más.

Numa noite, cansado, fizemo um café de cambona que tomemo, junto com um naco de rapadura e adespos de arrematá cum dois o três talagaço de canha, fumo dormi.

Ensiguidita o Ormiro roncava mais que bugio no pé da serra, mas eu não conseguia pegá a pestana. De repente, mais ligero que enterro de bixiguento em dia de sol quente, no meio do descampado me aparece um treco, cheio de luzinha piscadera, e de dentro sai uma potrancaça, mais linda que china correntina, e me diz: buenas noches, gauchito!

Como sô índio respeitador, mesmo disconfiado, também arrespondi: buenas, moça!

Foi daí que me alembrei que já fazia quase um mês que a única cosa que eu cumia era farinha de mandioca, fejão e carretero e o único pau que eu infiava era moirão de alambrado, entonces arresorvi incumpridá a prosa.

- Bueno, diz ela, ronronando mais que gata de bolicho, eu sou uma marcianita que ando explorando a tua terra.

- Ué, mas tu fala ingual a eu, tchê?

- É que nós somos um povo muito adiantado e depois de muito tempo de estudo, nós aprendemos o jeito de falar e a maneira de como as coisas são feitas e até nos transformamos em seres iguaizinhos a vocês.

- Vocês fazem tudo como nós e tamém são ingual a nós em tudo, mesmo?

- Igualzinho em tudo. Mesmo!!!

- Entonces tá especial, pensei e já intimo da pinguancha preguntei, amostrando a guampa de cachaça: A marcianita aceita um traguito de canha?

A chinoca nem respondeu. Passô a mão na guampa, engoliu a metade da canha e ainda deu uma estalada nos beiço.

- Marcianita, tu é sortera o casada?

- De lá de onde eu venho o casamento não existe.

- Mas filhos vocês fazem, não?

- Claro que fazemos, mas para a reprodução, nós precisamos de um macho e de uma fêmea.

- Mas báh, igualzito aqui na pampa.

- Depois que o homem e a mulher se encontram, um toca com os lábios na boca do outro, se dão as mãos e, juntos, vão fazer um filho. Entendeu?

- Bueno, aí vareia. Mas por aqui, tamém é quase assim.

- Aí a mulher dá uma cuspida na mão do homem e o homem faz a mesma coisa na mão da mulher, então há uma mistura química com as salivas e os dois ficam esfregando as mãos de um na do outro, por mais ou menos quinze minutos, até que a criança aparece.

- Mas que bagualice, tchê. Me adisculpe, mas essa parte é muito deferente.

- Diferente? Como assim?

- Bueno, já que tu é visita aqui no meu pago, eu vô te ensina, na prática, o jeito dos gaudério fazê fio. E tu pode levá o aprendizado pro teu povo, que eu nem vô te cobrá pelo sirviço.

Chamei a prenda na chincha e adespos de mais de uma hora de esfregação e guspida, a marcianita, já sem folgo, me diz:

- Gaúcho, que incrível. Isso foi a coisa mais fantástica que eu já fiz! Mas...e o bebê???

- Bueno, o piá só vai aparecê daqui a nove mês, tchê.

- Ahhh, gauchãooo, então por que parooouuu!!!

E agora? O que vocês querem que eu diga pro Eleutério? Me mandem um chasque sugerindo e também dizendo se vocês querem ou não saber mais sobre o PrEGa - Programa Espacial Gaúcho.

-Ô Eleutério, me emprestas o Porquera?

Eu quero ver se ele é bom mesmo e como ele se sai, canhada a dentro, farejando a toca das mulitas.