A MORTE DO VELHO TEATINO

Paulo de Freitas Mendonça

 

Era uma noite bonita,

Primavera, era setembro;

As estrelas brilhavam

Colorindo a escuridão,

Que nem malmequer no campo

Embelezando as coxilhas.

 

Enquanto cá embaixo

A coisa não era muito diferente,

Contavam casos num canto,

No outro tomavam canha,

O chimarrão lá na cozinha

E café preto na varanda.

As mulheres pelos quartos

Cerzindo as velhas bombachas,

Outras conversam fiado,

Os homens contavam estórias

De fandangos, carreiradas e chinas

Poucos ficaram na sala.

 

Comentava-se pouco

Da vida do pobre velho,

Mas todos lhe queriam bem,

Pois desde que a guerra acabara

Fora peão desta estância

Sem um dia dar desgosto.

 

Quisera ver o finado

Como fora seu velório

Pois vivia a dizer

Que não queria choradeira,

Pois se a vida é sofrida

A morte há de ser descanso.

 

Não queria ver tristezas,

Nem luxo ou falsidade,

Nem mesmo ser defunto apessoado

E sim mais ou menos pilchado,

Da maneira bem campeira

Como estava acostumado.

 

Bombacha preta e arremangada,

Camisa velha, o lenço colorado,

Botas, seu tirador companheiro

Guaiaca, trabuco, a faca,

O velho chapéu de guerra

E o pala por travesseiro.

 

Deste jeito foi sua pilcha

Em sua última estada,

Foi pro lado do Patrão Celestial

Pra gozar o seu descanso,

Mas deixou aqui, saudade e ensinamento

Do seu jeito bem bagual.

 

Deitado no centro da sala

O clarear das velas iluminavam

O leve sorriso exposto aos lábios,

Donde sairam conselhos,

Incentivos, críticas

E histórias de sua experiência,

 

Seu violão ficou no rancho

Marcando sua preesença

Que nunca há de faltar

Na memória dos parceiros,

Foi-se apenas o corpo

De um gaúcho muito cuera.

 

Mas lá há de ser melhor

Não deve haver sofrimento,

Nem guerra, fome ou falsidade;

Como dizia o teatino:

Encare a morte como outra vida

Pois esta é a realidade.

 

Deve hoje estar sentado

Em um cepo, tranqüilito,

Mateando e dizendo versos,

Pois aqui na estância

Alegrava qualquer um,

Lá lá não há de se apagar.

 

Seu prazer era cantar

E contar sua experiência.

Sua Crença? ah, que crença

Era xucro e realista

Mas sempre bonachão,

Por isso há de estar no Céu.

 

Passou-se toda noite

Como um relampejar no pago;

No outro dia seguiu o enterro,

Nas faces se notava a inquietude,

Mas sem choro e sim saudade

Deste que agora partia.

 

Sua alma já se foi

Deve estar até assistindo,

Mas claro que está sorrindo,

Pois assim que ele queria,

Mas deve sentir saudade

Da amizade que deixou.

 

Voltaram p'ra estância

Seguiram as lides campeiras

Mas em cada brincadeira

Lembrava-se do teatino,

Mas tudo voltou ao normal

Embora a ausência de um amigaço.

 

A indiferença que havia

Não era falta de amor,

Foi assim que ele pediu

E assim se fez com respeito.

Morreu o velho  teatino

E foi p'ro além satisfeito.