ENCHENTE

Paulo de Freitas Mendonça

 

A chuva desce fininha

Como se não fosse nada

Mas forma uma enxurrada

Assustando as galinhas

Até os galos de rinha

Correm para o galpão

Está encharcado este chão

Nem o gado pode pastar

E dá pena de olhar

P'onde fiz minha plantação.

 

A tarde esfumaçada

Das garoas do inverno

E o nublar quase eterno

Na tampa toda apagada

Quase não se enxerga nada

Só o vulto de um capão

Que fica lá no oitão

De um rancho abandonado,

Pois tudo está alagado

Por baixo da cerração.

 

A chuva em demasia

Até me causa tristeza

Pois tira toda beleza

Que a pampa bela irradia,

Os animais perdem as crias

Que se vão no aguaceiro

E o pobre do lavoureiro

Que anda de má situação

Perde toda a plantação

Que cuidou o tempo inteiro.

 

Os peixes alegres vão

Por ver água em fartura,

Mas a jornada é insegura,

Breve as águas se entregarão

E as várzeas lhes negarão

As águas para nadar,

Se eles não puderem voltar

À tempo pela correnteza

Morrerão na incerteza

De poderem retornar.

 

Até o Boitatá fugiu

Pois a enchente o apagou,

Quem sabe ele se afogou

Na água funda do rio

Ninguém sabe, ninguém viu.

Sinto a falta de sua chama

Só vejo água e lama

Por todo este varzedo

Ainda não estou vendo

O Boitatá clarear a grama.