FOGO DE CHÃO

Paulo de Freitas Mendonça

 

Entre a lenha rasa

Vai subindo a labareda,

Pega fogo de vereda

E a madeira faz-se brasa

E uma milonga sem asa

Voa de canto a canto do galpão

Ao sair do violão

E da garganta do cantor

Num jeitão de pajador

Beirando um fogo de chão.

 

A chaleira enfumaçada

Do mesmo fogo e fumaça

E a cuia que logo passa

Pelas mãos da gauchada

Bebida buena, esverdeada

Mui buenacho chimarrão

Que é o parceiro do coração

E também dos carreteiros

Que por este Rio Grande inteiro

Fazem seus fogos de chão.

 

Fica clareando e aquecendo

As suas inspirações

Que saem dos corações

E das mentes vão vertendo

Lá fora pode estar chovendo

Mas aqui dentro há aconchego,

A indiada nos pelegos

Bem à gosto sentados

Depois de terem campereado

Os potros, touros e borregos.

 

Picam palheiros de bom fumo

Enquanto pinga a graxa da picanha

E chega o índio que se assanha,

Desses que andam sem rumo

Oferece a canha do seu consumo

Dessas buenas de alambique

Que desce assim sem repique;

E logo pede estada

Se juntando à gauchada

No galpão de pau-a-pique.

 

Tem o cusco vagabundo

Que fica meio atirado

Pois ele fora ensinado

Pelo negro velho Raimundo,

Que se bandeou deste mundo

Para a eterna quer^wencia

Mas deixou sua experiência

De bom peão e conhecedor

E esse grande louvor

Marcou p'ra toda existência.

 

Buenacho fogo de chão

Que inspira minha memória

És o símbolo da glória

Deste meu guapo Rincão,

Em todo e qualquer galpão

Tu te fazes presente

Formando a mesma corrente

De fé ao gauchismo

Revivendo com civismo

A herança de nossa gente.