GARANHÃO

Paulo de Freitas Mendonça

 

Vejo ao topo da coxilha

Um garanhão solto das patas

Vai se perdendo ao léu

Qual uma nuvem sensata

Solita no espaço

Querendo o azul do céu.

 

Orelhas soltas ao vento

As crinas vão sarandeando

O suor vai transbordando,

Brilhando o pêlo bonito,

É um teatino andante

No verde quase infinito.

 

Vai pateando em liberdade

Relincha ao pago contente

Mata a sede nas vertentes

Leva sua vida bagual

Neste seu mundo animal

Que é exemplo pra nossa gente.

 

Vai deixando o rastro

Igual sua visão

Vai cortando o pago,

Bebendo a cerração

Aos galopes e relinchos

Faz sua canção.

 

Expressa em correria

A sua própria história

De paz e liberdade

Tal fosse a realidade

Cantando suas glórias

Com tanta humildade.

 

Não conhece escravidão,

Laço, arreio ou buçal

Corre em liberdade

Peleando com a sorte

Pois a tal escravidão

É pior do que a morte.

 

Corre, não pára, anda.

Anda. Teatino andante

Conserva tua liberdade

Siga sempre adiante

Não te afrouxes nunca

A este mundo maltratante.

 

Relinchos de toda goela

Escorre o suor salmoura

Vai semeando ao pago

Veloz e contente

Sempre indo à frente

Corta rios e lagos.

 

Tua raça buena

Não pode extinguir

Tens que progredir

Em tua jornada

Pois tu sempre viverás

Em minhas pajadas.

 

Vai, galopa, voa

Vai pateando, garanhão

Tua marcha não é à toa

Mesmo havendo solidão

Conserva tua raça buena

Relíquia do meu rincão.