HONRA, ANSIEDADE, ORGULHO

Paulo de Freitas Mendonça

 

Eu castrei a crueldade assassina

E sem querer mudei a história,

Minh'alma emancipatória

Nunca fora teatina,

Vinha cumprindo minha sina

Que hoje a indiada se orgulha,

Não foram pontaços de agulha

E sim de lanças embandeiradas

Pelas batalhas travadas

Graças a Deus eu fui grulha.

 

Vi as tropas acampadas

Na Azenha dia dezenove

E a história que comprove

A excelência apavorada

Mandou sua tropa michada

Pra desmanchar o argumento

Mas teve forte repelimento

Que até se perderam nas trilhas

E o povo se uniu aos farroupilhas

Reforçando o Regimento.

 

Enquanto Bento ao comando

Das tropas em Pedras Brancas,

O Braga juntou as tamancas

E já saiu galopeando,

Pois estava abandonando

O Palácio cheio de covardia

E se bandeou a la cria;

Então Bento entrava na Capital

Com aquela indiada bagual

Triunfante, no outro dia.

 

Li a carta de tomada

Escrita para Feijó,

Dizendo que saira levantando pó

O presidente em disparada

E que era recomendada

Que a nova presidência

Fosse um homem de experiência

E filho deste Rio Grande

E que este filho comande

Com amor sua própria querência.

 

Foi Araújo Ribeiro o indicado,

A província aprovou,

O movimento acatou

E os soldados, foram dispersados

Cada um para o seu lado

Mas ficando sempre vigília;

E breve nestas coxilhas

O povo já comentava

Que não era o que se esperava;

Recomeça a Revolução Farroupilha.

 

Vi a Assembléia Provincial

Se reunir em dezembro

Até parece que lembro

O dia oito na capital

Juntou-se todo o pessoal

Armados o tempo inteiro

E com medo matreiro

Os deputados falaram

Num instante renegaram

A posse de Araújo Ribeiro.

 

Ele fugiu para Rio Grande

Com intenção de juntar tropa

Mas a notícia logo galopa

E na província se expande

E p'ra não deixar que comande

Tropas contra os libertadores

Foram juntando-se os peleadores

E com o apoio do povo

Começando tudo de novo,

Guerra, política e clamores.

 

Nos tomaram Porto Alegre

Que nunca mais foi farrapa

Mas não foi assim de inhapa,

Não nos demos por entregues

E não há ninguém que negue

Que continuamos lutando

O império segurando,

Enquanto no interior

O farrapo peleador

Vitórias ia amontoando.

 

Eu vi em Fanfa a derrota

E Bento ir preso ao Rio de Janeiro

Êta momento matreiro

Naquela hora remota

Aquela indiada devota

Na ilha encurralada,

Mas na peleia cerrada

Repeliam nos navios

Que vinham pelo rio

Mas não conseguiram nada.

 

Vi Bento exilado

Pensando em seus peleadores

E com seus admiradores

Que também eram revoltados

E num jeitão bem camuflado

Lhe ajeitavam para fugir;

Mas mesmo sem conseguir

Trabalhava sem alarde,

Encontrou-se com Garibaldi

E o convidou para aderir.

 

Índio do mesmo talento

E do mesmo ideal correto

Se juntou às tropas de Neto

Aceitando o chamamento

Que lhe fizera o Bento.

Chefiou a navegação,

Em defesa do nosso Rincão

Proclamou a República Juliana.

Voltou. |E novamente se irmana

Com garra na nossa Revolução.

 

Vi a vitória do Seival

Com grande empolgação

No outro dia a proclamação

Para a alegria geral

Ficando como capital

A buenacha Piratini

Depois partimos dali

Indo para Caçapava

E depois pra Alegrete passava,

As três capitais eu vi.

 

Vi Bento ir pra Bahia

Pensativo em sua gente

Fora eleito presidente

Mesmo não sendo o que queria,

Com a ajuda da maçonaria

Conseguiu de lá escapar

E com o ideal de retornar

Vinha vindo mui feliz

Com pressa de chegar ao seu País

Que lhe incumbiram de governar.

 

Nos fizemos independentes

E o Novo País se fez assim

Porque Bento estava ausente

E fora o aclamado Presidente,

Assim que retornasse à querência

Se empossaria a excelência

E ele que vinha voltando

Já estava se moldando

Republicano, por conseqüência.

 

Vi a República organizada,

Com trato de país fino

Apoiando o ensino

Para toda a gurizada

Nos municípios aulas foram criadas

Também com o forte ideal

De incentivar a população rural

Pra que tivesse instrução

E fazer deste Rincão

Uma República intelectual.

 

Já tínhamos uma Embaixada

No vizinho Paraguai

E pela Argentina e Uruguai

Se fazia a cruzada

Das mercadorias comercializadas

Com as outras nações,

Pois com todas intenções

De ser um país justo

Não medimos custos,

Seguimos nossas razões.

 

Fora criado correio

E muitas novas estradas

Outras até melhoradas

Para que houvesse asseio

E lhes digo porque creio

Que estes libertadores

Não tinham peleadores;

Tinham um delegado por município

Todos com o mesmo princípio

No Conselho de Procuradores.

 

Vi Bento Manoel Ribeiro

Peleador de muita raça

Gostava de estar na fumaça

Pois era corajoso e ligeiro

E sempre fora matreiro,

Peleava por interesses pessoais

Sem ligar para os ideais,

Pois passou para o nosso lado

Quando se viu desacreditado

Nas tropas dos imperiais.

 

Vi discórdia dos irmãos

Mas com muita honraria;

Vendo que quem venceria

Ganharia compreensão,

Somente espadas nas mãos

Para o duelo ser travado.

Vi o Onofre ensangüentado

Mas com muita valentia

E o Bento lhe estancar a sangria

Demonstrando ser honrado.

 

Vi valentes e falsários,

Eu assisti ambos os lados

Requisitarem cavalos e gado

Dos que eram proprietários

Mas só acusaram os revolucionários

de malfeitores e ilegais

E o império que fez o mesmo ou mais,

Pior que tropas de proscritos,

Não ficaram nos escritos

Pois censuraram os jornais.

 

A situação em perigo

Rosas me ofereceu apoio

Mão se mistura com joio

Aquele que é bom trigo.

Eu vi que não era amigo

Somente queria tirar proveito;

Recusei por achar direito

E segui solito meu trilho,

Fui taura para os caudilhos

Que souberam impor respeito.

 

Entre ganhas e perdidas

Ficaram manchas pra traz

E as tentativas de paz

Tantas mal sucedidas

E mais peleias seguidas

de honras e desenganos

Entre imperiais e republicanos,

Então Caxias aqui chegou

E com Canabarro pacificou

Esta guerra de dez anos.

 

Honra nós tivemos

Ao levantar a espada

E ver a República proclamada.

Muitas batalhas vencemos

E outras tantas perdemos

Entre lutas e barulhos;

Fora e dentro dos mangrulhos,

Houveram tantas ansiedades,

Mas hoje e na prosperidade

Há de prevalecer orgulho.

 

Fui peleador do anonimato

Que morreu sem ir pra história

Fui a própria trajetória

Percorrida em campo e mato,

Fui resumo de um relato

Que matou muitas vidas,

Que tirou peões das lidas

Pra se fazer peleador

Que por um ideal e amor

Morreram sem despedidas.

 

Eu fui o peleador

Na antiga era

E revivi n'alma cüera

De quem tem o mesmo amor

E deste ideal faz louvor.

Eu sou carne e não trinco

E pela querência não brinco.

Eu sou o próprio Rincão;

Eu sou a reencarnação

Do Protesto em trinta e cinco.