LEMBRANÇAS

Paulo de Freitas Mendonça

 

Num domingo, há muitos anos

Acordei de madrugada

Meio ruim mas sem retruco

Me espreguicei, fui na porta

E avistei que ali passava

Uma tropa de gado xucro.

 

Então gritei pra um dos peões:

Tropeiro, p'ra onde te vais

E ele disse: Buenas rapaz,

Vamos p'ra próxima estância,

Haverá hoje um rodeio

E vai ser grande a festança.

 

Já fiquei bem entusiasmado

E tratei de tirar o freio,

Dei um mergulho no rio

Que nado e conheço há anos,

P'ra poder colocar os panos

E me bandear para o rodeio.

 

Enchi a guampa de canha

Que nunca pode faltar,

Dei uma ajeitada na pilcha

E o pala p'ra me abrigar

E fui retito ao potreiro

Para o meu pingo encilhar.

 

Encilhei o meu tordilho,

Cavalito bom de queixo

E atrafulhei meus apetrechos

Na garupa desse pingo

E fui imaginando

Como seria meu domingo.

 

Mas antes de montar

Entrei de novo no rancho

Juntei meus talheres de briga,

Pois afinal sou carancho,

Não gosto muito de intriga

E se tiver eu desmancho.

 

Estava saindo o sol

Quando eu cheguei na porteira

E gritei: Eta porqueira,

Há lugar para um xiru?

Vá te chegando índio velho

Sempre há para um índio que nem tu.

 

Entrei, fiz o meu rancho

De santa-fé, taquara

E pau-a-pique,

Fiz fogo, esquentei água

P'ra tomar o chimarrão,

Era eu, meu tordilho

E a canha de alambique

Os três parceiros do galpão.

 

Mas cedito chegou a peonada

E muitas belas chinocas

E um gaúcho não se entoca

Quando vê china faceira,

Dei de mão na minha gaita

P'ra largar algo entonado

E saí aprumado

Num compasso de rancheira.

 

A gauchada gostou

E já foi se aprochegando

Até que chegou o patrão,

Disse: Buenas e foi entrando

E eu disse: pois traga as prendas

Que a festa está começando.

 

Meu galpão ficou cheio,

Apertado que nem queijo em cincho

E eu fiz um baita bochincho

Junto dessa peonada,

Mas tinha uma prenda bronzeada

Da pele cor de canela

Que era a chinoca mais bela

Com olhar de mal amada.

 

Eu toquei esta rancheira

E passei para um vanerão

A gauchada dançava

Na frente do meu galpão,

Corria o mate amargo

E também a canha buena

E eu cada vez mais enrolado

No olhar dessa morena.

 

Até que chegou um gaiteiro

E eu passei minha oito baixo

E saí bem no compasso,

Dançando com essa chinoca,

Pois afinal quem se entoca

Diante de uma prenda

Deve vestir-se de renda

E não de bombacha e bota.

 

Fiquei com a prenda

Junto desta gauchada

E olhando a peonada

Que montavam redomões

Era um que aguentava,

Eram dois, três que caiam

E assim passou de manhã

Até chegar ao meio dia.

 

Ao meio dia levei a prenda

Para o meu galpão

Entre um e outro chimarrão

Nós dois bem faceiros,

Fizemos um carreteiro,

Que até hoje eu lembro

E sinto o sabor tão gostoso

Daquele bueno tempero.

 

De tarde houve apresentação

Das invernadas artísticas

E eu sou índio que se atiça

Quando vê sapateado

Nada mais me encabula

Já saí firmezito

Sobre a lança

Dançando uns passos de chula.

 

Mais tarde nos bandeamos

Em direção a cancha reta,

Olhei para o alazão e disse:

Este é bom de patas,

Então contei minhas pratas

E apostei no desgraçado,

Mas ele saiu desnorteado

Lá para o meio da mata.

 

Perdemos a carreira

E lá se foi meu dinheiro,

Mas minha prenda ali,

Me dando apoio,

Eu afinal não sou joio

Mas me misturei no trigo

E encontrei um amigo

Que me emprestou uns cruzeiros.

 

Então pensei: agora ganho

Ou me arrebento no trilho,

Peguei o meu tordilho

E me bandiei para o partidor

E gritei: Eta gente buena,

Pois que mandem o ganhador.

 

O dono do malacara

Marcou para as quatro horas;

E tal hora saímos juntito

Desde o risco da raia,

A minha firmeza

Nem quero que apareça,

Meu tordilho ganhou por cabeça

Do potro do Sr.Maia

 

Recuperei minhas pratas

E até saí lucrando,

A prenda? Forrou o ponche,

Pois estava em mim apostando

E quando apeei do pingo

Ela correu me abraçando.

 

Já era de tardezita

Então disse o patrão:

Gracias pela atenção,

Está buena a festança

Mas temos que ir embora;

E até hoje eu lembro

Aquela chinoca buena

Troteando a campo fora.

 

Mas antes dela partir

Dei-lhe um relho de buena trança

Que fora por mim trançado

P'ra que sirva por lembrança

Que algum dia em um rodeio

Deixou um índio apaixonado.

 

Fiquei assistindo a prenda

Suave nos arreios,

Até seu último olhar

E agora p'ra não chorar

E nem lembrar o rodeio

Vou à outras festanças

Para reviver as lembranças

Daquele bueno rodeio.