PEQUENO AGRICULTOR

Paulo de Freitas Mendonça

 

Um cinamomo na frente do Rancho

Que outros chamam paraíso,

Talvez nem fosse preciso,

Pois não posso nem sestear.

A vida de pequeno agricultor

É somente trabalhar.

Quando saio p'ra lavoura

O sol ainda não apareceu

E quando volto, já anoiteceu,

Quase não conheço a sombra

Do cinamomo que há anos

Na frente do rancho nasceu.

 

Na época do plantio

Trabalhei de sol a sol,

Fazendo taipa e plantando

E à noite ficava aguando

O arrozal meio falhado;

Para colher foi pesado

Não tinha dia nem hora

E nada se pode botar fora,

Tudo nos custa empenho;

Agora, vou levar de carreta

E vender lá na cidade

Para o dono do engenho.

 

O arroz está colhido

Talvez sobre tempo

Para sestear um bocado,

Mas não posso ficar parado,

Tenho muito o que fazer,

Tenho de cortar lenha,

Amontoar e vender

Tenho de ir a cidade

Fazer compras pra Prenda

Lápis e caderno

P'ra que o meu filho aprenda

Ler, somar e escrever.

 

Minha vida não é mansa,

Vou cuidar da criação

E pedir ao bom patrão

Que fique nos protegendo,

A leitoada está crescendo

E vão dar bastante banha

E também que nem um sorro

Vá bater no galinheiro,

Pois são os pilas que o piá ganha

E dá p'ra juntar algum dinheiro,

Vendendo lá na cidade

Os tais ovos de campanha.

 

E assim se leva a vida

Quando a sorte nos abraça,

Afinal, não é de graça

Nos tempos em que vivemos,

Vou plantando alguma coisa

P'ra bóia do dia a dia

Moranga, abóbora, batata,

Mandioca e melancia,

Vou tirando leite das vacas

Que estão de novo com cria

Mas estão caros os impostos

Que me cobram hoje em dia.