PIAZITO

Paulo de Freitas Mendonça

 

Vejo os tempos de piazito

Passando em minha mente,

Puxa, como era contente

Brincar à sombra do arvoredo;

Bois de laranja por brinquedo

E de pauzinhos o piquete.

 

Sem saber muito da vida

Sorvi a natureza crua;

Acordava bem cedinho

Indo em direção ao brete

P'ra tomar leite quentinho

Da Beca, a preta zebua.

 

Brincava em verdes campos

Sem ligar para a natureza,

Mas fui sentindo a beleza

Das coxilhas do meu pago,

Assim, que nem trago a trago

Conquistei minha firmeza.

 

E lá no fundo da estância

Saía a colher pitanga,

Maracujá, guabiroba

E nas pereás bodoqueava,

Tomava banho na sanga

Afoito e fazendo prova.

 

Montava o petiço baio

Que era p'ra gurizada,

Laçava os palanques do potreiro

E os tocos da queimada

Até afiar o braço

E laçar terneiros na invernada.

 

Me tornei bem laçador

Graças a dedicação,

Já peleava com firmeza

Nos campos do meu rincão

E também perdendo o medo

Já montava redomão.

 

Carreirava com os outros piás

Domingo depois da missa,

Pois eu tinha a cobiça

De crescer e ser campeiro

Honrado assim a tradição

Deste sangue altaneiro.

 

Nas noitadas de tertúlia

Me enfiava, metido a peão,

Trovava feito adulto,

Com fácil inspiração,

Tomando canha na guampa

E sorvendo chimarrão.

 

Nos dias de marcação

Eu sempre me fiz presente,

Me sentindo bem contente,

Útil, não guri vago,

Como se fora uma semente

Que brotara deste Pago.

 

Aprendi amar a Pampa,

Pois a Pampa adoça a alma

E a alma é que faz viver;

hoje sou índio apessoado

Honrando este sangue colorado

E o chão que me viu crescer.