RANCHO DE PAU-A-PIQUE

Paulo de Freitas Mendonça

 

Rancho de pau-a-pique

Santa-fé e chão batido,

Desde que vinha surgindo

Eu assisti te formar,

E me inspiraste simpatia,

É claro que eu queria

Te ver feito e lindaço,

Pois sou índio que passo

De galpão em galpão

Mateando com os companheiros

E agora sou mais faceiro,

Pois tenho que este rancho alegre

E não há guacho que negue

Ou despreze um paradeiro.

 

Posso trazer meus amigos

P'ra trovar neste galpão,

P'ra uma visita cordial,

P'ra tomar chimarrão

E aquela canha bagual;

Retribuirei hospitalidade

Com grande satisfação,

Eu garanto e digo de coração

Que este rancho é aconchegante,

Pois onde existem gaúchos amantes

Do folclore, do passado

E do Rio Grande presente,

Faz-se tudo que se pode

P'ra ver a indiada contente.

 

A tua alma e a nossa

É este teu fogo de chão

Que me traz inspiração

Por reviver o passado,

Quando tropeiros acampados

Preparavam os alimentos,

Foi este fogo ao relento

Que nos trouxe grande glória;

Mais antigo do que a história

Mas sempre fora parceiro,

Ao teu redor não há luxo

E tua alma que aquece,

Representa como uma prece

O forte sangue gaúcho.

 

Ainda tenho a lembrança

De quando tu nem existias,

Ninguém imaginaria

Que fosse assim tão bonachão

Escuta querido galpão

Como te defino agora:

Cada capim do teu teto

Representa um índio esperto

Que lutou por nós outrora,

Cada linha uma batalha,

Cada caibro um capitão

E os esteios de tua estrutura

Representam a alma pura

Das prendas do meu Rincão.

 

Nosso cordial te aprochega

Está expresso em tua fachada,

Pois és recanto

P'ra caranchos e teatinos,

Andantes sem destinos

P'ra indiada de todo lado;

És palco de muito artista,

Pajadores nativistas,

És pousada de gaudério,

És um rancho sem mistérios

Mas graças a Deus, honrado,

Pois fora feito com o objetivo

Exclusivo

De reviver o passado.