TEATINO

Paulo de Freitas Mendonça

 

Solidão, ah solidão

Eta amargo sentimento,

É um talagaço de tento,

Mais forte que um pealo,

É um aperto no gargalo

Como desprezo de china

E não há benzedeira que cure

Esta malvada assassina.

 

Um guasca que foi grulha

Na Revolução Farroupilha

Quando lhe afrouxaram a presilha

E ele voltou p'ro seu rancho,

Seu galpão em sua estância

Ele não mais encontrou,

Pois o inimigo p'ra vingar-se

Chegou antes e o queimou.

 

Mataram sua amada,

Mataram até as crianças

Somente lembranças

Restaram de sua família,

De que valeram batalhas vencidas

Se doeu mais a vingança.

Ele lutou por liberdade

Mas morreu sua esperança.

 

Foi caudilho nas coxilhas

E lotou de espada em punho,

Peito a peito com o inimigo.

Comandou a muitos homens

Com raça, força e coragem

Depois ficou na aragem,

Pois até um touro escaramuça

Quando lhe tiram a pastagem.

 

Quem um dia foi capitão,

Só lhe restou o cavalo

E p'ra livrar-se deste pealo

Resolveu fugir das lembranças,

E viver de estância em estância

Trabalhando como peão

Sem fixar paradeiro

P'ra acostumar o coração.

 

Na primeira que ficou

Logo foi admitido,

Pois é reconhecido

O índio que é bom peão,

Que enfrenta as lides campeiras

Que criado no trabalho duro,

Pois sua face demonstrava

Ser gaúcho honrado e puro.

 

Começou no outro dia

E já provou ser destorcido

Para os companheiros                                                                                                                                                                                                                                                                     Seu nome era teatino

Afinal pouco importava,

Sempre fora honrado

Passou o resto de guerra

Com alma quase morta.

 

Enfrentava as lides campeiras

Com maior atrevimento:

Guasca criado ao relento

E conhecedor da querência,

Com força da experiência

Trazida de seu Rincão,

Pois desde piazito ajudava

Em dias de marcação.

 

Pelear uma rês campo a fora

P'ra ele era divertido;

Se tornou índio querido

Pela maneira de trabalhar,

Um guapo que nunca falha

Tem a confiança de peão,

Dá segurança aos parceiros

E tranqüilidade ao patrão.

 

De tardezita as lembranças

Lhe partiam o coração,

Mas o sangue forte de peão

Não deixou a vida parar

Então começava a cantar

Brincar, beber e sorrir,

Pois p'ra vencer a dor maleva

Era preciso até fingir.

 

Não era de seu feitio

Viver de fingimento,

Mas p'ra matar o sofrimento

E o traiçoeiro destino

Se tornou teatino,

Tentando esquecer o passado,

Vivia cantando e sorrindo

P'ra não ser um índio aperreado.

 

À noite a beira do fogo

Preparava seu chimarrão,

Dava de mão no violão,

Cantava uma música tirana

E se lembrava de seu lar,

Tomava um gole de cana,

Declamava uma poesia divertida,

Sorrindo p'ra não chorar.

 

Era sorridente e bondoso,

Alegrava muito os parceiros;

Com seu violão companheiro

Cantava e tocava por demais,

Contava as histórias da guerra

E de chinas encontradas

Mas atrás desta alegria

Tinha uma alma penada.

 

Passou-se algum tempo,

Muitas prendas lhe mirando,

Mas seu coração ainda chorando

Não deixou se apaixonar;

Achou ser hora de debandar

E procurar outra estância

Pois prenda alguma conseguia

Lhe tirar as más lembranças.

 

Pediu os haveres ao patrão,

Encilhou o seu cavalo

E se bandeou campo a fora,

E se foi o teatino embora,

Poucos sabiam seu passado,

Sabiam que esteve na guerra,

Mas nem ao menos que ele era

Um índio amargurado.

 

Foi sentindo a solidão

Como sentira no rancho,

Não queria nem lembrar da guerra

Que lhe causou o sofrimento

Pela covardia do inimigo;

De que valeu ser honrado

Se o destino foi malvado

E lhe deixou sem abrigo.