NEGRO DESTINO

Jorge Claudemir Soares

 

Nasci rei na minha querência,

e fui dono do meu chão;

Andei livre como o vento

fui pai, já fui irmão.

Mas, um dia fui caçado,

virei carga de porão,

enfrentei a peste braba

e trabalhei pelo pão.

 

Virei gado numa feira,

e moeda de negócios.

fui discórdia de sócios

na partilha de meus filhos,

me avaliaram pelo brilho

da alvura dos meus dentes

fui reprodutor de gente

nas senzalas deste exilio.

 

Quando os laços estiraram

palanqueando o “chimarrão”,

fui eu quem rachou o garrão

pisando os terreiros de sal,

fiz um esforço colossal

pra aguentar o sol no lombo

e sonhar com um quilombo

como a minha pátria ideal.

 

Andei léguas nestas terras

seguindo rastros de arado,

tive meu corpo esfolado

no látego de algum insano.

Campeei tropilhas de ruanos,

com a benção de Maria

e assombrei as sesmarias

pra castigar um tirano.

 

Um dia me fiz lanceiro

pra defender o Rio Grande,

e ofertei o próprio sangue

por um ideal bizarro,

feneci no mesmo barro

em que jazeram soldados,

peleando desarmado

traído por Canabarro.

 

 

Já fui diabo... fui santo,

dependendo as circunstâncias.

nos confins destas distâncias,

fui de novo atraiçoado

me devolveram maneado

em Ponche Verde, pro Império

num acordo sem critérios

de comandantes “acertados”.

 

Os filhos dos meus patrões

foram meus irmãos de leite,

embora, nenhum me aceite

pra partilhar sua mesa,

criaram-se com a certeza

que nunca verão miséria

e a preocupação mais séria

foi desfrutar sua riqueza.

 

O que ganhei, foi desprezo...

ignorância, sofrimento e dor,

exploraram o meu suor

e afanaram minha cultura,

sobrou-me a vida dura

separado da minha gente,

porque me acharam diferente,

pois, nasci com a lonca escura.

 

Minhas filhas foram objeto

dos desejos de Senhores,

padeceram os horrores

de estupros consumados;

pariram filhos acaboclados,

pra perdê-los nos leilões,

ou criá-los pelos galpões

com a pecha de enjeitados.

 

Quando perdi serventia

me expulsaram do campo,

vim morar cá pelos cantos

que me deram por esmola,

comendo a própria cola

como um lagarto teatino,

vou morrer sem criar limo

como pedra que muito rola.

O hoje, é ontem sempre

pra povo que foi cativo,

tento manter-me altivo

e suportar as lambadas;

vivo ainda a chibatadas

de hereges que me odeiam,

os rancores me permeiam

como lanças, afiadas.

 

Nas dificuldades passadas

moldei minha descendência,

mas, não mudei a essência

de homem tosco e campeiro,

talvez, nunca tenha dinheiro

pra comprar minha liberdade;

ou alguém já viu de verdade,

algum negro estancieiro?

 

Não sou rei nesta querência,

nem sou dono do meu chão!

Não sou livre como o vento

não tive pai e, nem irmãos,

mas continuo sendo caçado

pra coabitar a prisão,

vou morrer com o destino

de negro maula e fujão.

 

Quando, Deus criou o mundo

fez os seus filhos iguais,

e disse que o ódio jamais

suplantaria a fraternidade,

mas, o andar da humanidade

caminhou na contramão,

endureceu o coração

e desobedeceu a sua vontade.

 

Que Jesus Cristo se apiede

dos que me acham inferior,

que eu sei, sou superior

por todas as mazelas sofridas,

lambi minhas próprias feridas

e conheci as minhas verdades,

eles não aguentariam a metade

do que aguentei nesta vida.

 

Pela história que trago

inserida na minha estampa,

sou um dos pais desta pampa,

e de parte destes confins;

da longínqua terra que vim

trouxe o trabalho no sangue

e o progresso do Rio Grande

ainda depende de mim