UMA SEMENTE DE VIDA!

 

     Jurema Chaves

 

Numa manhã de setembro

Um par de olhos tristonhos

Emoldurou-se à janela

Parecendo um quadro antigo.

 

Olhava tudo a sua volta

Pousando o olhar pensativo em cada detalhe

Pois precisava encontrar-se.

Na  vertente de água fresca

Com transparência de espelho,

Aonde a lua e as estrelas, vêm ajeitar os cabelos.

E ficou a meditar...

Onde parou o seu tempo?

Quanto tempo isso já faz?

 

Olha demoradamente, como quem esteve ausente,

Sem nunca ter se afastado...

A morada, ainda a mesma, toda florida, enfeitada

Como esperando por ela...

Mas nunca saiu dali!

Será que o tempo parou e ela nem percebeu

Trancada dentro de si?

 

Onde o tempo ficou?

Onde mesmo que a deixou?

Naquela noite talvez...

Quando da morte de um sonho,

O mais amado de todos - somente ela sabia,

Só ela pode sentir como doeu a partida!

Morreu um pouco por fora,

Por dentro sentiu-se morta

Quando o viu naquela porta, dizendo adeus, num aceno.

 

Ela trancou-se pra vida, vivendo o mundo pra dentro.

Nem a janela se abria, nem a voz se fez ouvir...

Vivenciou todas as lágrimas, remendou cada pedaço

De seu coração partido

Quando sentiu que era hora

De enfrentar seu destino,

Secou o olhar dolorido, num jeito tão decidido

Como quem parte pra luta.

 

A guerreira levantou-se, abriu de vez as janelas

Descansou os olhos pálidos na mansidão da paisagem.

Sua morada de sempre

Sempre seu porto seguro.

E agora mais do que antes, há de viver cada instante,

Curar as suas feridas na paz de sua querência.

 

 

Olhando a branca roseira, que ela mesma plantara,

Bem na entrada do rancho, já  toda reflorescida

Com suas garras de espinhos,

Enroscou-se na cancela, como a impedir as partidas

Ou perfumar as chegadas...

Parece que até as flores entenderam-lhe os motivos

Desse estranho mutismo, e a ausência repentina

E resistiram a todas as intempéries,

Pra esperarem por ela com coloridos perfumes!

A natureza é tão sábia, entende a dor dos viventes.

 

Quantos dias, quantas horas ficou sem olhar pra vida?

Quanto tempo? Ela não lembra

Ou prefere não lembrar.

Pois guardará dentro da alma essa saudade infinita

Que não cabem nas palavras...

E faz enchentes no olhar!

 

Guardou com calma e ternura

As coisas que ele esquecera sobre um banco no galpão

Um par de esporas já gastas, um chapéu torto, amassado

Um par de botas batidas, uma gaitita sem voz...

No velho fogão campeiro as chamas  já se extinguiram

Só restam cinzas no chão.

 

Ela engole o soluço, dizendo de si pra si

Que a vida vale viver, mesmo que o mundo desabe,

Que essa dor nunca se acabe

Mesmo assim há de vencer.

Resistirá certamente, há de fazer-se contente

Há de voltar a sorrir!

 

Sim, muitos sorrisos virão, quando tiver em seus braços

O fruto sagrado do amor que lhe ficou,

Que a fez abrir as janelas para olhar o sol nascente

Quando sentiu outra vida, desabrochando

Com doçura em seu ventre!

 

 

Ela sorri e suspira, pois chegará breve o dia

Que terá entre seus braços um anjo tão delicado

Com mãozinhas de veludo pra acariciar-lhe o rosto

E uma voz tão pequenina a chamar-lhe de mamãe

Terá alegria maior?!

Quantas canções de ninar brotarão dos lábios dela!

Com embalos de ternura,

E tantos milhões de carícias, em doces beijos maternos

Pra ofertar ao seu filho!

 

Nem que o coração lhe sangre, em seus silêncios contidos,

Há de engolir os gemidos, e a cada dia renascer,

Pois sabe que tem agora uma missão a cumprir,

Que a tudo se  sobrepõe.

Um frágil ser respirando

A cada suspiro dela.

Maior presente de amor que uma mulher pode ter.

De ver crescer em seu ventre um anjinho abençoado

Fruto do amor que ao seu  lado,mesmo tendo-lhe abandonado,

Fez outro sonho nascer,

Deixando pra todo sempre, num olhar doce, inocente

Que a  faz chorar tão contente,

E fez-se heróica  valente,sempre pronta a defender,

Acordando a fera bravia pra  proteger sua cria,

Nada  a fará desistir.

Esquece a melancolia, contando horas e dias

Ensaiando a melodia  de uma canção de ninar.

Não se queixa não reclama, não teme mais o futuro

Seu tesouro está ali...

Nessa força imensurável  de amor incondicional

Que um coração maternal, carrega dentro de si!