CALÇANDO ESPORAS

Adriano Silva Alves

 

Hoje o tempo, me encontrou calçando esporas

Com paciência de campeiro,

E olhos de domador...

 

Me viu com botas de potro,

E um sonho, buscando outro;

Junto as pedras da mangueira.

 

Viu repetir os seus gestos

E revelar os seus passos,

Que aos poucos deixavam rastros;

Sobre as saudades do chão.

 

Um buçal torcido,

De alma bruta, na força dos tentos

Vinha debruçar, junto ao cabresto,

Seus manifestos antigos;

Por sobre o pulso canhoto.

 

Da mesma mão que trazia

Por entre o rude dos dedos,

O desfiado de um pito,

Compondo junto a fumaça;

A moldura silenciosa

Que revelava com gosto,

Mais do que um quadro de campo

Nas ‘paredes’ da manhã.

 

A primavera das crinas

Despontou num pataleio,

Que fez romper as esperas

Dos sovéus de forma antiga.

 


E um som de “frente cavalo”

Veio surgir junto a poeira,

Que espalhava encantos;

Feitos de espera e de ventos

Sobre a copa judiada,

Dos desabados sombreiros.  

 

E o tempo, que hoje me viu campeiro,

Calçando esporas,

Com olhos de domador...

 

Escolheu um mouro pampa

Que refugava na forma,

Empurrando a juventude,

Na fibra dos cascos pretos...

 

Como a revelar  liberdades

Que ainda pulsavam por dentro.

 

 

Por certo queria, devolver-me

A consciência Charrua,

Que esqueci dos meus primeiros.

 

A idade das boleadeiras,

Na realidade das sogas,

A alma esguia das lanças,

E um grito de vida inteira

Que dorme junto a garganta.

 

Ou a identidade, da pampa

Que se reparte em infinitos;

De verdes cores tingidos.

 

Que vem soprar doloridos

Seus lamentos, mais conscientes,

Na hora, que o inconsciente

Vem revelar-se em poesia.

 

 Talvez a mesma que hoje

Me reencontrou nesse sonho;

De atar esporas e tentos,

Nas simples botas de potro

Ou mesmo, de encontrar outros,

Com olhos de domador.

 

Desses que o tempo, ainda guarda

Em seus sinceros, contidos,

Entre as poeiras dormidas

Que com ventos ganham vida

Sobre a copa judiada,

Dos desabados sombreiros.

 

Esse tempo, verdadeiro

Que insiste em desvendar

Gestos de hoje, com feições de ontem...

 

E que há de sempre me encontrar

Nas horas dos meus silêncios,

Quando o inconsciente, soprar;

Seus guardados, em poesia.

Com simples botas de potro,

Calçando, a forma de esporas

Com paciência de campeiro,

E olhos de domador...