CANTALÍCIO

 

Zeca Alves

Pegou gosto pela coisa                                     

quando ajudava seu pai...                                 

começou num cai, não cai,                                

mas foi pegando o tenteio;                               

dava os primeiros galopes,                              

e meio aos tombos e golpes                                 

tornou-se um homem do arreio.                         

 

Filho do Adão “Chamichunga”                        

(que lhe botou no serviço),                    

querendo fazer com isso                                    

que ele soubesse o valor...                                 

reconhecendo a importância                             

daquele ofício, pra estância,                             

e não para o domador.                        

 

Adão pensou que o menino,

pela rudeza da lida                    

fosse querer pra sua vida                   

rumo inverso ao que escolheu;              

porém, se o dom é uma graça,               

nem que doa na carcaça,                       

o destino pertence a DEUS.                      

 

Lhe dava um meio salário               

a cada três que pegava...                   

em sua cabeça, ele estava                

mostrando pro Cantalício,                     

que a doma é cheia de encantos,              

mas que ninguém paga o tanto               

quanto vale o sacrifício.                           

 

Mais um que foi pela vida

adquirindo experiência,

arcando co’as conseqüências,

“levando o pago nas costas”;

- que pra que alguém campereasse,

tinha que ter quem domasse,

e cada um faz o que gosta.

 

Hoje velho, traquejado,

ainda sente nos braços

o peso dos simbronaços

que escorou na profissão;

mesmo assim, ainda enfrena,

que a vida ficou pequena

e lhe deu outra função.

 

Assim, feito outros tantos

esquecidos na memória,

que as metáforas da história

deixaram no anonimato...

foi um mestre sem diploma,

e quem sabe o valor da doma

não vai negar este fato.

 

São muitos iguais a ele

que vivem pelos galpões,

inspirando gerações

com gauchismo, em verdade;

e emprestam chapéu pra outros

que vivem falando em potro

pra se amostrar na cidade.

 

Cantalício, pouco a pouco

foi ficando calejado,         

e ao contrário do esperado               

seguiu os passos do pai...            

que já naquelas alturas,         

por conta das quebraduras     

nãotava” domando mais.        

 

Cantalício das ponteadas,

reculutas, revisadas...  

que fez muita gauchada

sem jamais pensar em si;

por isso  teve seu mundo

resumido aqueles fundos,

e nunca saiu dalí.

 

Cantalício, Cantalício...

no fundo seu pai queria,

com xucra sabedoria

que percebesse também,

-que se arriscar com crinudo,

não faz os que tem estudo

pagar mais pra quem não tem.

 

Repetiu-se a mesma história

com outro ponto de vista...

pra o Cantalício a conquista

foi de alma e coração;

-toda escolha tem seu custo,

mas nunca se mede o justo

pelo seu grau de instrução.

 

Oitenta e poucos janeiros,

e nunca ouviu-se um lamento;

apenas os argumentos

do Cantalício, que diz:

-vive em paz com sua consciência

quem demonstra inteligência

e se basta em ser feliz.