COM LÁGRIMAS NA VOZ

Mateus Lampert

Do silêncio dos galpões... trago a amplidão!

 

Que faz as invernadas pequenas

para o tranco largo dos pingos...

que de cincha no osso do peito

levam o rincão nos encontros!

 

Da alma incontida de anseios... faço espelho!

 

Com ela cantam vozes esquecidas...

lembranças dormidas em caponetes,

nas sombras do tempo que o tempo perdeu

onde eu... ainda me reconheço.

 

Das charlas, prosas e talareios... vem meu cantol

 

Que é livre e não embreta seus sonhos

de levar o rincão nos encontros...

tal se tivesse a força dos meus pingos

de cincha apertada no osso do peito...

 

Das horas largas de mate... formei consciência!

 

Da certeza de saber quem sou...

e se a vida me transformou em caminhos,

a solidão ficou maior do que apenas ser sozinho

e se enraizou de forma eterna alma adentro.

 

Das tardes paradas pelos mormaços... meu jeito!

 

Que traz essa estampa, mansa e serena

...tal fosse uma folga domingueira,

mas que quando abre suas porteiras

se derrama em som e sentimento.

 

Da ciranda infindável das luas... fiz meu mundo!

 

Povoado de carinhos e de amores...

primaveras em flores, espinhos da japecanga

...as águas da sanga que correm campo afora,

feito veias que fazem pulsar meu coração....

 

Da polvadeira dos apartes (da vida)... sou saudade!

 

Que se alvorota quando aperta a pegada

...enchendo os olhos de terra

e se aqueita nos rodeios mais distantes

sobre o verde dos pastos e o cinza das pedras.

 

Das marcas no rastro da estrada... sou distância!

 

Com a presilha simbrando no cinchador

...de laço estirado com o pago na ponta

e os tentos da lonca firmes na trança

assim sou distância... sou distâncial

 

De tudo que fui e que sou...

quem sabe... ser distância

tenha moldado minha estampa!

Na alma emponchada de pampa

...de sonhos e de saudades,

carrego todas as verdades...

do verso que salta da garganta.

 

Dos apartes que levei nos encontros...

trago cicatrizes que não se apagam no vento

e assim a distância me fez: sentimento...

 

Das volteadas... que me fizeram estrada

levo olhares molhados de terra

e no cinza das pedras ficou um pouco de mim.

 

É por isso... e somente por isso...

que meu peito aberto canta...

Com a altivez de quem se levanta

e banca na rédea o seu tempo

e bota pra fora os lamentos

do verso que salta da garganta.

 

São vozes de ancestrais que cruzam o tempo...

pra encher de luz os momentos... em que canto!

E a eles entrego todo o meu pranto...

 

Dos versos dos outros... me apodero

pra dizer tudo o que quem e o que sinto...

pra assim ser verdade... e assim não minto!

 

Das distâncias que trago...

guardadas dentro de mim

...poucos saberão o seu fim,

por mais que eu transpareça

e conte segredos a quem mereça...

pois poucos sabem, de fato, de onde vim.

 

Acredito que vim de antigas eras...

dos ranchos taperas e fundos de campo

...do pago que foi santo sem precisar de igrejas!

 

Eu vim de um cerne que continua vivo...

de porte altivo e chapéu quebrado na testa

e é por isso que, peito adentro, muita coisa me resta.

 

Quando canto, meu pranto...

vem do telurismo terrunho

que carrega em si o cunho

do tempo dos meus avós

...e assim eu não canto só!

Desculpem esse meu jeito...

mas quando abro meu peito

escorrem lágrimas na voz...

 

A lágrima que molha meu rosto... muda seu gosto,

em cada verso... em cada vez que de mim me despeço

pra me transformar em som, sentimento e poesia!