CULATREIRO

 

Adriano Silva Alves

Hoje não quis ser ponteiro,

Hoje não quis ser ponteiro...

 

Preferi vir na culatra,

Pra ver a estrada depois.

 

Alma judiada, corpo cansado,

Um resto de fumo,

Compondo um palheiro;

 

A tropa delgada, sentida do frio,

Pelo grosso, segue a marcha;

 

E eu que quis vir na culatra

E eu que quis vir na culatra...

Pra ver a estrada depois.

 

Quero falar do tropeiro,

Das geadas, luas, pampeiro;

Não quero lembrar dos bois.

 

Ontem na última ronda

Depois do mate, o assado,

Bebi da noite outro trago

De nostalgia e silêncio.

 

Nem mesmo a seda do lenço

Pode defender o fio

Da lágrima que cortava,

Quando o vento bordoneava

Outra triste melodia

Que copiei, pra neste dia,

Me acompanhar no assobio.

 

Mudei semblante e cavalo

Hoje no “baio encerado”,

Ontem, o moro prateado.

Deixou meus passos na estrada.

 

Mas hoje...

Hoje é o fim da jornada

E eu que quis vir na culatra;

E eu que quis vir na culatra

Pra ver a estrada depois...

 

Deixo pra traz mais que o trote,

E empurro a diante minha sorte

Junto ao destino dos bois.

 

 Chego na frente da estância

Já quase no fim da tarde,

E um resto de sol invade

A nuvem clara de poeira.

 

Não vi abrir a porteira

Hoje me “toca” fechar,

Mas faço a tropa cruzar

Pelo grosso, mais delgada;

 

Inteira a conta na talha

Pouca ‘plata’ pra contar.

 

E a noite vem debruçar

Sobre o segredo do dia,

A mesma triste melodia

Que copiei pra o assobio.

 

Outro pouso, mesmo fio,

Da lágrima, cortando o lenço;

Solto o baio e então repenso

Talvez a própria existência;

 

Eu que quis vir na culatra

Eu que quis vir na culatra;

Pra ver a estrada depois...

 

Sem ter a própria querência!

Sem ter a própria querência...

 

Achei querência pra os bois.

 

Depois do mate, do assado.

Não quis beber mais um trago

Da minha própria nostalgia;

 

 

Adormeci...

E a melodia do vento

Me fez esquecer o tempo;

Pra esperar a manhã.

 

Fechar de novo a porteira

De tiro o baio encerado

Ao tranco, o moro prateado,

Deixando os passos na estrada.

 

O mesmo corpo cansado,

A mesma alma judiada...

O mesmo resto de fumo

Compondo um novo palheiro.

 

Eu que não quis ser ponteiro...

 

Eu que quis vir na culatra!

Eu que quis vir na culatra,

Pra ver a estrada depois...

 

Ontem fui homem, tropeiro!

Ontem fui homem, tropeiro.

 

Amanhã...

Amanhã, também serei boi.