DA BAINHA AO SANGRADOR

 

Cristiano Ferreira Pereira

 

 


Laços bem estirados e firmes.

Leve alarido ao redor.

A brisa varrendo o pouco tempo que resta;

Silêncio das esporas cantadeiras.

Olhares que se fitam, fixos;

As ventas da rês, arfando;

Pupilas dilatadas, as do qüera.

 

E deste...

Um suspiro fundo;

Um meneio de corpo;

A mão que escorrega pela guaiaca,

Campeia - e encontra - o cabo

E a fera... que se liberta

Para um vôo de um instante:

Da bainha... ao sangrador!

 

Breve momento e resumo:

Respeitoso alívio

- Na mão e na obrigação -

E um berro sufocado;

Faina... e ponto final.

 

Aquele que emprestou asas

Para a viagem certeira da faca,

Aguarda o tempo certo

Para courear e carnear.

A rês?!

Produz seus últimos sons e espasmos,

Encerrando o ciclo da vida

Para principiar o do couro.

 

Cena forte, mas real!...

Translúcida aos olhos

Atentos e curiosos.

 

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Mas...

Este instante não é apenas um mero lapso temporal,

Resguarda em si anos da História:

 

 

Do pampa...

                   Do homem...

                                        E do gado.

 

Por tortuosos caminhos,

O homem miscigenado

Se fez gaúcho e pampeano!

Conquistando estas plagas

Por conta de seu desejo,

Da persistência, coragem e

Até... por necessidade.

A custo de grande parte da nação indígena,

Clara e fortemente presente

No seu apego terrunho.

 

O palco de batalhas e disputas de território

Foi sendo dominado e demarcado.

Passando a ser fruto de produção

E fonte de legados e riquezas...

Bem além do vil metal.

 

O gado - pelos europeus - foi

Introduzido neste cenário:

De costeio quase inexistente

Nas grandes sesmarias,

Gado xucro - chimarrão.

Época esta em que o tropel dos fletes

Trazia junto o tino de um campeador...

- Vaqueano destas bandas -

E a mão mui firme e certeira

De um desjarreteador campechano.

 

Sim!...

Era praticamente uma caçada.

Então..

Era a carne para o alimento

E... o couro para às vestes.

 

Para maior o proveito:

Da carne... veio o charque;

Do gado... a criação com manejo nas estâncias;

Diminuíram às distâncias...

Menos lidas pros faeneros.

 

E cercas recortaram os campos,

Não mais abertos;

Feitas de pedras... por supuesto.

Já os alambrados - pautas do tempo -

Chegaram na geração dos “recortes”

Das charqueadas e Estâncias grandes;

Quando até os de mesmo sangue

Pareciam falar línguas diferentes,

Reescrevendo as memórias do pago.

 

Por diferentes razões,

Nestes séculos...

Em que a cena reponta a História,

A mão do homem

Se fez garra voraz:

De fera ferida, ferindo a um irmão;

Por ganância; por orgulho e poder;

Por plata; por terra...

Por um pedaço de pão!...

 

O gado...

Se multiplicou... e foi multiplicado.

Hoje, doutos senhores

Dizem até que causa danos ao firmamento:

Pela sua existência em quantia.

Mas... e a carne? O charque? E o couro?

As razões certamente são outras...

Bem racionais, por sinal!...

 

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Uma mão calejada encontra

O cambão da porteira.

A outra...

À pequenina e frágil, de um neto.

 

Chega mais perto da cena,

Pra se abaixar e falar ao guri:

 

- “Filho!...

Este boi,

Que assinalei como teu,

Vai nos dar a carne do churrasco,

O charque do carreteiro...

E o mocotó... que tu gostas.

 

É assim que se faz pelos campos

De toda essa pampa grande.

Do couro dele é que vamos

Fazer tuas primeiras cordas,

O preparo e a bainha...

...Pra esta xerenguita

Que agora te regalo.

 

Lembre de tudo o que te contei

E não esqueça jamais:

Faca é “p'ras” precisão!

Na lida de uma carneada; pra lonquear;

Cortar corda no perigo;

Tirar uns tentos...

Mas não é pra se aninhar num irmão!

 

Para as carneadas...

Já vistes como fazer.

E te recordes de mim,

Nem que seja no rápido momento

Em que a tua mão - já adulta -

Campeie o cabo e encontre...

Para um “relâmpo” de História,

Num vôo firme e certeiro:

Da bainha... ao sangrador!”...