DESABAFO

 

Jaime Brum Carlos e Flaubiano Lima

 

 vai o último lote

Na carga do boiadeiro.

Não ficou nem um terneiro

Daquele florão de gado

Que mesmo em bom estado,

Marcha pra morte iminente.

É a própria vida da gente

Roubada num fim de tarde

Por uma sentença covarde

Num julgamento indecente.

 

O guacho foi com os bois,

Vacas de leite, terneiros.

Ficou vazio o potreiro

Em verdadeiro holocausto.

Não sobrou nada no pasto,

Nem mesmo na vizinhança,

Pois quando a peste avança

Se instala um ritual de morte.

O campo chora a sua sorte

E a vida perde a esperança.

 

Quem já assistiu esta cena

Que veste o campo de dor

Sabe bem que o desamor

É parceiro da ganância.

Ver despovoar-se uma estância

Enlutando o pago inteiro

É entregar-se ao estrangeiro

Num culto a prepotência

Contraponteando a ciência

Com a força do dinheiro.

 

Se o vírus chegou no campo

Por falta de prevenção

Matar não é a solução,

Pois a vida não tem preço.

Pra tudo tem um começo.

Só a morte é  um final.

Hay cura pra todo o mal.

A vida é bênção divina.

Quem a morte determina

É bem mais irracional.

 

Estes senhores da morte

são escravos da razão

E nem sequer tem noção

Do carinho e do amor

Que os que vivem no interior

Tem pela criação.

Os bichos de estimação

são como parte da gente

levados como indigentes

na ceva de um caminhão.

 

Matar só pra jogar fora

É o mais vil dos instintos

Se o povo anda faminto

Confinado nas favelas.

Jamais se apagam as mazelas

Da ausência da gadaria

Numa incessante agonia

Nas profundas cicatrizes

Dos campeiros infelizes

Vendo a invernada vazia.

 

No dia em que a ciência

Balizar as decisões

Sem se curvar aos cifrões

E interesses obscuros

Será mais justo o futuro

Para o homem e para o gado.

Os direitos preservados,

a paz...  a perder de vista

com a força de um cientista

maior que a de um deputado.