A LENDA DE UM GUITARREIRO

Jurema Chaves

Chegara não sei de onde

vinha num potro cansado

de tanto buscar distâncias.

Pilchas surradas de tempos

lenço e chapéu, só poeira

mas tinha brilho no olhar

e um riso calmo, sereno!

 

Chegou na estância à noitinha

quando a boieira nascia

pediu licença ao patrão..

num buenas mui educado

com seu permisso me apeio.

 

E o patrão hospitaleiro

ofertou-lhe um mate quente

e o taura devagarito

foi lhe contando passagens

o que buscava e queria...

era um domador, o andante

que fazia por capricho,

como estranho cambicho,

de devastar horizontes!

 

O patrão lhe deu pousada,

pois sentira que o taura

era de fato um campeiro,

pela franqueza e respeito

pela clareza ao falar

mostrava conhecimento.

E seu maior documento,

além das longas melenas

era uma Cruz de Lorena

Rebrilhando sobre o peito!

 

E por ali se aquerenciou

na lida de domador

pois era bueno de fato

esse índio, maragato

com olhos de mansas águas

e manhas de pajador!

 

E sempre nas noites de ronda

quando a peonada reunida

o galpão junto aos braseiros,

o domador guitarreiro

de imediato se ouvia,

como se o tempo parasse...

e o ar se perfumasse

pra enfeitar-lhe a melodia.

 

E a guitarra lhe entendia

como a ouvir-lhe o coração

como se fossem duas almas

numa mesma comunhão.

Como se uma luz se irradiasse

num túnel de escuridão.

E um não sei quê envolvia

as canções que ele cantava

parecia até que a lua,

curvando-se humildemente,

ajoelhava-se aos seus pés!

 

Estranho que aquelas mãos,

rudes e tão cheias de calos,

de manusear com cavalos,

curtida ao vento pampeiro,

ter a leveza das plumas

sobre as cordas da guitarra,

e, seu olhar transcendia

neblinas do mês de agosto.

que teimosas se escondiam

por entre as marcas do rosto.

 

Que força estranha o movia

pois nunca mais foi embora

se fez amigo de todos.

Fez-se poeta da aurora!

Talvez esconda segredos

que se desatam dos dedos

quando ao lembrar se demora.,

seus olhos se umedecem..

Por isso, a guitarra chora!

 

Só ela pode entender

quando em noites de invernias

o vento traz-lhe agonias

que ficou de algum amor.

quando sonhos se extraviam

e, ficam faltando flores

Pra reflorir nas janelas!

 

Por certo muitos andejos

entendem esse gaudério

que se plantou nos arreios

e se mandou a "lo léu”,

fez rancho de seu chapéu,

fez do peito uma guitarra

e de seus olhos tristonhos

brotam mllongas de amores

em partituras de auroras.

 

A ninguém diz os motivos

de se bandear de caminho

talvez seja algum espinho

ditas promessas de amor..

Que deixou em seus pelegos.

um perfume traiçoeiro

que nunca o abandonou.

Por capricho ou teimosia.

pra plantar poesia,

na alma do guitarreiro!