DAS AURORAS INEXISTENTES

Ari Pinheiro

Parei de criar cavalos

na estância do improviso

que pra chegar ao paraíso

é preciso muito pouco  

se o céu é o abrigo dos loucos

e viver aqui é loucura

eu sou mais uma criatura

que está se mudando aos poucos..

 

Cansei do cheiro de terra

que só havia nos versos

que o campesino universo

de casuarinas e esporas

e outros trastes lá de fora

existem como tema

um mote para os poemas

de inexistentes auroras...

 

Deixei do vicio empolado

de me fingir de campeiro

que o tempo, meu companheiro

não aceita meias verdades

e ando pouco a vontade

nestas pilchas domingueiras

compradas em sobra de feira

aqui no centro da cidade...

 

Abandonei os bolichos

e os churrascos de garagem

que a gauchesca mensagem

dos homens anda esquecida

minha gente anda sorrida

apanhando sem ajuda

como cavalo de Judas

pelas quermesses da vida...

 

Não mais cantarei estâncias

com alqueires de trevais

que o pátio dos meus iguais

não tem nem grama paulista

e embora a memória insista

em me puxar ao passado

não vou morrer afogado

no arroio dos saudosistas...

 

Eu quero um outro universo

baseado em antigas crenças

aonde não haja sentenças

compradas a peso de ouro

aonde haja berro de touro

no campo e não nas canções

e apenas as emoções

arrepiem nosso couro...

 

Talvez assim eu repense

esse meu inconformismo

que o templo do gauchismo

sempre foi a liberdade

seja no campo ou na cidade

é preciso entender a premissa

de que só com paz e justiça

se é livre de verdade!