ENSAIO SOBRE A INVEJA

Cristiano Ferreira Pereira

 

Mal clareia a nesga de uma nova luz...

e a inveja bombeia quieta,

espreitando... ao longe,

ensaiando ditos e buscando a volta,

tecendo a tela para quem se importa...

com a calmaria de pregar de um monge.


 

Desgostosa pelo bem dos outros

e.. de febril cobiça,

é o sentimento que a ganância atiça

nas almas frágeis onde só vicejam calos...

levando à ruína qualquer fortaleza..

não adiantando rezas ou cem mil badalos.

 

Seria simples se não fosse o Homem...

um galpão de areia ao vento levado,

mesmo que – garboso - venha bem montado

nas experiências que colheu na vida..

porque a inveja é uma recaída

que, "no mas", lhe aguarda de mate cevado.

 

Talvez quem ouça só encontre fel

e inconseqüência de filosofia  rude...

ou consciência adentro... ache uma virtude,

da inocência em lábios de mel...

ou Dom Quixote deixando o papel

pra pelear para que essa verdade mude.

 

Num banhadal de sonhos ou... calma de açude,

onde os salsos formam rodilhas

para – de sobre lombo – lançarem um olhar.

por fim.. o espelho d'água possa revelar

a face da inveja rondando as coxilhas..

e o caráter saia da sua ilha... para se encontrar.

 

Quem sabe o verso, que a esperança encilha,

leve o perfume da maçanilha

para adoçar o mate que restou cevado,

ou... solto no seu potreiro interior

– somado a outros, forme uma tropilha

retouçando livre... de lombo lavado.

 

É forte o tento que arremata a trança...

é carga de lança que a inveja fere,

porque a batalha que um poema adere

é semeadura de deixar lembrança...

veja os outros com olhos da criança que...

a magia da poesia gere!...