ROMANCE DO BOI AMARELO

Alvandir Oliveira  

Encontrei, certa vez,

um menino no caminho.

 

Vinha ao longe,

empoeirando um resto de tarde.

Fazendo mágicos velos

nas patas de um pingo velho,

garboso, num galopão...

 

E o brilho da soalheira

naquela tarde de mormaço,

recriavam em meus olhos,

como em tela repintada,

de um corcel e seu ginete

num quadro de sedução.

 

No lombo daquele cavalo,

Como um Sepé renascido,

aquele corpinho esguio,

leve, frágil e flexível,

como a haste de um junco novo

na transparência de um rio.

 

Só diferente no olhar...

Um olhar forte, inquietante,

que me varava a alma.

 

Imaginei um chasque urgente...

Um recado pra parteira...

Ou mesmo notícia ruim.

Pois esta costuma voar

como os ventos das tormentas!

 

Não!... Aqueles olhos

mostravam águas revoltas

de um mar grande,

brigando por seu espaço,

reclamando o que perdera!

 

"Boenas” tarde seu andante!

Falou esbarrando o cavalo.

- Não viu por aí um boi amarelo,

com as aspas bem branquinhas?

Pelas beiras desta várzea,

ou preso n'algum grotão?

 

Procuro meu boi amarelo

que sumiu como um feitiço!

Se foi nas asas das bruxas,

nesta noile de desgraça,

de vento, chuva e trovão.

 

Arrancou as taquareras,

fez estragos na mangueira,

deixou o rancho aninhado.

Levou por diante o galpão

e com medo do barulhão,

fugiu, por certo o coitado!

 

Me encarreguei desse boi,

Que era "os mimo" do meu pai.

(Que Deus o tenha no céu).

 

E com os olhinhos em véu,

levantou as rédeas brutas,

como um campeiro que era!

Deu adeus, já a galope,

no rumo da várzea grande...

 

Pois, quem não tem a quem mande,

Não perde tempo na espera.

 

Daquela boca pequena,

com vestígios de pitanga

não brotou desesperança,

nem queixas de "mala suerte'

como fazem tantas bocas

que choram o que perderam

pelas amarras da canga.

 

Me fui pro rancho.

cismado com a saga do peãozito.

Quantos anseios perdidos!

Quantos desejos feridos!

E que não foram faz-de-conta...

Mais um não pra seus pesares

na caixinha de brinquedos

das oferendas da vida.

 

O seu boi é o seu eito...

A escola está distante...

Falta tempo... Falta tempo!

Vai aprendendo na lida.

 

Velo à noite, lua grande,

meus olhos vagando as sombras

nos vazios do coração.

Pensava no guri campeador,

tão sozinho... olhos tristes...

E tanto quanto o seu boi,

perdido na escuridão.

 

Mas Deus tem olhos nos campos

nos olhos dos pirilampos!

 

Um cortejo de silhuetas,

como se "saído" da lua,

retoma a vida na estrada

num compasso de toada

de um assoviuzito pachola...

 

Na frente, o boi amarelo,

reluzindo as aspas brancas...

Logo atrás, como num quadro,

o pingo velho, voluntário,

garboso do seu destino,

com uma carga de alegria,

de um homem, alma e legenda

no coração de um menino!