LIBERTAÇÃO

Alex Brondani

 


 

Esta história vem de um tempo

Perdida no próprio tempo;

Vem do fundo dos requerdos,

Essência crua da alma

Que é cerne em pura raiz.

 

É a história de João,

Que no cerne da querência

 Viveu seus dias de rio,

Sem pressa, andarengo.

 

Cantando seu canto de vento,

Plantando rumos de vento,

Forjando acordes de vento,

Guitarreando

Milongas de vento,

Changueando versos de chão.

 

Apenas João,

De nome simples, de jeito simples, de traço sério.

De estradas, pontes e estrelas,

Puro de alma e guitarra nos sonhos do seu cantar.

 

Eis o seu perfil,

Sacramentado pelas bênçãos de batismo

E cruzes levantadas por seu nome,

Para cingir as cicatrizes do passado

Que o seu sangue herdou por descendência.

 

E talvez – para timbrar o seu destino –

Tenha buscado em si mesmo o batistério,

Legando ao vento mil verdades não tocadas

No largo anseio dos seus rumos de gaudério.

 

A guitarra como arma de combate,

O pensamento como o guia do seu chasque,

E a voz prostrada como fera enraivecida

Na defesa do ideal bem definido,

Com fio de adaga para lanhar os seus contrários.

 

Surgiu na estrada a repontar o mês de agosto,

Seguindo o rastro das garoas de setembro,

Em busca de um poente indefinido;

Acompanhado de uma estrela feito guia,

Como a boieira que guiou três velhos magos

Num tempo antigo para os rumos de Belém.

 

Dessa forma chegou o velho João.

De onde? De onde nunca se soube.

 

E se chegou simples, simples como a sua alma,

De chapéu atirado sobre as costas,

Poncho, Pala, Bombacha, Guitarra.

 

De guitarra presa aos ombros!

Com a alma das cigarras nela presa!

Que falava sem que palavras proferisse,

E se calava num silêncio mudo,

Envolvida por mistérios que hoje entendo

Serem o segredo dos segredos do infinito.

 

E assim se anunciou:

De nome: apenas João.

Por ofício: guitarreiro.

 

E entre paisanos, peões e tropeiros

Aquerenciados ao redor do fogo morto,

Se fez parceiros para as charlas cotidianas,

Bebendo o trago ofertado por mãos rudes

Num gesto amigo de consciência e humildade.

 

E porque o minuano pelos campos anunciava

Novos rigores perfilando o frio do inverno,

João foi ficando.

Mas nos seus olhos de posteiro solitário

Via-se a ânsia interiorana de sua alma

Na paz inquieta que embalava o seu perfil.

 

A sede infinda de beber distâncias

Era o tormento da sua caminhada,

E ao mesmo tempo,

Como o balseiro que do rio faz sua estrada,

A única razão do seu andar.

 

Mas entre aquela gente buena foi ficando,

Sorvendo amargos e baios de espera

No ocaso rude de seus tentos mal trançados,

De quem apenas o silêncio é companheiro

Quando os requerdos cobram erros do passado.

 

Era assim na maior parte das horas,

Quieto, misterioso e bombeador;

Atento ao vento que soprava nas flechilhas

À espera da florada dos trevais.

 

Mas, quando cantava,

Quando forjava da guitarra os seus acordes

Era o próprio vento em ascensão!

Sem que alambrados ou porteiras estancassem

A rebeldia e a pureza do seu canto.

 

Falava em paz nas suas palavras,

De um mundo sem fronteiras ou cancelas

Onde a seara era farta nas colheitas,

E os campos verdes, povoados de rebanhos,

Livres das marcas enrugadas pelo fogo

E dos brasões das antigas fidalguias.

 

Onde campeiros e povoeiros se enlaçavam

Num largo sentimento de amizade,

Fruto do respeito dentre irmão com irmão,

Sem que as sombras da ganância entoem as crenças

Dos homens simples, puros de alma e mais de coração.

 

Seus versos eram tentos de poesia

Emparceirados aos bordões da sua guitarra,

Seu canto o desvendar de uma fronteira

Legando aos homens liberdade dentro d`alma.

Dizia assim:

                                  

"Parceiros que me escutam,

Herdeiros dos segredos do meu canto;

Sou como o vento a bordonear coxilha a fora

Varando os campos nas estradas da razão.

Trago quimeras nas esperas dos meus versos

Para os humildes que changueiam pelo pão,

Mesclando ao chão a liturgia desta terra

Que fez-me dela um parceiro de oração.

 

A vós lhes digo que não basta ser querência

Se um mar de anseios nos preenche o coração,

Onde alambrados delimitam a existência,

Castrando os sonhos que são os frutos da ilusão.

Todos os caminhos são sombrios sem a esperança,

Sem a confiança que emerge em meu cantar,

Mas só um deles traz a paz aos esquecidos

E é recompensa dos que sabem esperar

 

Agora reflitam:

 

O sustento, é verdade, da terra tirei,

Quando o trigo plantei na esperança do pão,

Mas foi ele o pretexto de botar-me o cabresto

E explorar meu trabalho pela força das mãos.

Tropeei mil cabeças nas tropas de abril,

Por caminhos longínquos, extraviado no pampa,

Só restou-me o cansaço e a poeira da estrada

Que dos "pilas" da venda sobra pouco ao peão.

 

Galopeei no infinito de léguas de estâncias,

Mas um dia topei com um grande alambrado.

Só então entendi o monarca que sou:

Sem reino! Sem trono! Extraviado num pampa

Dominado por poucos que tão pouco não tem!

Um peão explorado pelo próprio passado

Na fantástica herança de ofícios e glórias!

De guerras! De guerras que foram, muitas vezes, derrotas!

De uma estirpe farrapa que tombou sem razão!

 

Tudo se aclarou paisanos, e agora entendo os motivos;

O galpão, trono esquecido, é o meu catre de requerdos,

A estrada, a fonte dos meus segredos.

A ideologia está errada, sua essência comprometida,

E o fogão da liberdade ofuscado por mentiras,

Por verdades impostas e outorgadas!

Por falsos profetas que destoam  seus discursos,

E pela opressão silenciosa de seus gestos

Feito o vento bordoneando nas taquaras.

 

A vós, paisanos, que me escutam sem falar,

E que se calam ante as vozes da opressão,

Ao vosso anseio será dada a realeza

Por vossa luta de paciência e de silêncio

Que fortifica e fortalece o meu cantar.

 

A herança que vos toca é o firmamento,

O horizonte na poeira dos caminhos,

O mate amargo que se bebe nos galpões,

A consciência, sem as sombras da culpa.

 

Meu canto? Meu canto é apenas o canto do vento

Mesclado à essência que reside nas taperas

E aos desalentos desfraldados pelo tempo;

Meus versos? Meus versos trazem paz nas suas rimas,

E consciência para as charlas fogoneiras

Onde residem as respostas que persigo.”

 

(...)

 

Tinha voz de profeta o velho João,

Nas palavras carregadas de encantos,

E nos gestos suaves passeando sobre as cordas,

Como sinos dobrando por anseios

Resguardados nos labirintos de sua alma.

 

 Quando nos campos e capões fez-se o rodeio

Trazendo o brilho e a florada dos ipês

Na garniçada das tropilhas redomonas,

João ainda estava lá,

Entre as mesmas gentes buenas,

Acompanhado da guitarra - sua parceira -

Tão misteriosa quanto à alma de seu dono.

 

Era hora de partir, sabia ele,

E numa manhã de sol claro e campo verde,

Enquanto os peões se atarefavam de suas lides

Na rudez diária do serviço bruto,

João sacou de sua guitarra,

E de mala e poncho em mãos

Se fez como as águas do rio manso,

Que em corredeiras lentas escorrem no leito,

Num destino incerto de rumos imprecisos.

 

Nem palavras, nem gestos, nem discursos.

Somente o aceno triste dos olhares

Marcando o parador de uma saudade.

 

No horizonte a silhueta de um gaudério

Engolindo léguas de distâncias esquecidas,

E na retina dos que ficam a memória

Para guardar trapos e penas não vividas.

 

Dessa forma partiu o velho João,

Para onde? Para onde nunca se soube.