QUANDO OS VERSOS GANHAM ASAS

Sebastião Teixeira Côrrea

 

Por onde andarão os versos

Que escrevi  nas madrugadas,

Quando a aurora da vida

Chegava batento cascos

Levando o tempo por diante

Como quem pecha um ventena,

 

Com ar de quem se garante

Na roseta da chilena

Como quem  salta por fula

Surrando em passo de chula

Quando a vida se apequena

 

Como  aves emplumadas

Que ao voarem deixam  ninhos,

Meus versos ganharam asas

E alçaram vôo das casas

Imitandoos passarinhos

 

Às vezes, quando mateio,

Fico mirando a boieira

Que ao longe me pisca o olho

Como uma prenda faceira,

 

Então pergunto, por onde

Andarão meus versos potros,

Parece que ela responde

Que assim como tanto outros,

Se entropilharam a lo largo 

Pra correr nas pradarias

Com sede de liberdade

E ganas de sesmarias

 

E eu que pensava que os versos

Fossem  mansos de buçal,

Sujeitos, pelos piquetes

Ficassem lambendo sal...

Que pucha! Gasto nas noites

As salinas que há em mim,

Brotando densas vertentes,

Meus olhos formam torrentes

Que parecem não ter fim

 

Então reviro gavetas

Buscando antigos rascunhos,

 

Encontro frazes esparsas,

Como plumagens de garças

Que ficam por testemunho

 

De que algum dia estiveram

Como aves migratórias

Numa estação em que a vida

Florescia em primavera

Toda semente nascia

Toda flor era uma espera

De frutos povoando os campos

Pra nunca existir tapera

 

Assim cruzo minhas noites

A procura de respostas

Cada pedaço de verso

É uma parte das apostas

Que fiz em tempos de moço,

Com sentimento profundo

Na ancestral filosofia

De que somente a poesia

Poderá mudar o mundo

 

Meus anos, a trote largo,

Lá se vão, já bem distante,

Acolherei  experiências

Que hoje me servem bastante

 

Tentei  erguer alguns ranchos

Sobre areias movediças

E fiar com falsos velos,

Os fios de falsas premissas;

Tentando colher searas

Lancei  sementes aos ventos

Pequei pela ingenuidade

E só colhi tempestade

E machuquei sentimentos

 

Caso as respostas não venham

Já não me faz diferença;

Por mais que os versos contenham

De uma forma muito intensa

O que me foi mais querido,

O que me foi mais sagrado,

O que me foi mais sofrido,

O que me foi mais amado,

 

Porque cada sentimento

Vai refletir seu momento

Num mesmo tempo: O passado!

 

Apenas peço permisso

Ao Supremo Criador,

Que os meus versos sigam livres

Chegando, seja onde for,

Jamais se verguem ao jugo

De patrão ou de senhor,

 

Que sejam flechas certeiras

No alvo das injustiças,

Sejam lanças matadeiras

Pra muitas caras postiças

Que não coram de vergonha

E nem choram por piedade

 

Que sob a força da cruz,

Tendo a benção de Jesus,

A poesia seja a luz

Pra guiar a humanidade !