ROMARIA

 Luis Lopes de Souza


Joelhos rotos vão semeando gotas rubras

no trajeto de tortura e de louvor,

a carne viva cada vez fica mais viva

num martírio que exorciza a própria dor.

 

As promessas se glorificam sem pressa

amparadas pelas tropegas passadas

no sagrado alumbramento do caminho...

Urgem pelas graças suplicadas

ladainhas e terços sussurrados

no cortejo de campeiros peregrinos...

 

São terríveis as amargas que digerem

nas entranhas de uma vida inconsequente,

olhos fitos na imagem venerada

empurrados pelo transe reverente...

São lentos os rumorejos das preces

e rudes as oferendas no andar,

são corpos de carnes mortificadas

que o fracasso já cansou de castigar...

 

São devotos despilchados do meu Pago.

Rogai, rogai por eles Minha Santa...

 

Os dedos que se cruzam são judiados

e tremem os movimentos das mãos

calejadas pelos cabos das enchadas

e por cepas cambaleantes dos arados,

mas bonitas em postagens de oração...

 

São lerdos os braços descarnados

que domaram bois de cangas e cavalos,

embrutecidos pelos golpes quase férreos

no manejo de marretas e machados,

mas são fartos de forças e vigor

pra levarem por divina recompensa

o seu trono imaculado no andor...

 

Não sabem os porquês de suas fraquezas...

Não sabem os porquês de suas desgraças....

São refugos extraviados de uma raça

renegados pelo tempo e pela sorte...

Ignoram os porquês de seus pecados

e ignoram os porquês da própria morte...!

 

São terrunhos despeonados do meu Pago.

Rogai, rogai por eles Minha Santa...

 

Clamam espíritos moribundos

no percurso penitente percorrido...

Batem os distúrbios do desgaste

na engrenagem dos membros corroídos...

Gritam malsinados pecadores

que o descaso condenou por esquecidos...

 

... se erguem as carcaças que sucumbem

no rebojo de um dormente desatino.

... se propagam os pedidos de perdão

nos percalços do milagroso caminho.

... os lamentos de aleluias repercutem

nas estocadas pontiagudas dos espinhos...!

 

Arames farpados cingem

consciências pecaminosas...

Punhais de erros judiam

corações arrependidos...

O lenho das cruzes cala

sobre as feridas dos ombros

e o próprio orgulho rasteja

esmagado pelos tombos...

 

São os parias desvalidos do meu Pago.

Rogai, rogai por eles Minha Santa...

 

São meus joelhos que semeiam gotas rubras

no trajeto de tortura e de louvor...

mas prossigo contrito e resignado

arrastando o meu fardo de pecados

que me enche de remorso e de pavor...!

E queima a minha alma em sacrifício

ruminando os porquês de sua miséria...

- esta alma só despertou para a fé

quando a dor se apoderou da matéria -

 

Rogai, rogai por mim, Minha Santa...

E intercedei junto a Deus

pra que eu alcance um perdão,

pois nunca usei para o bem

as virtudes que Ele me deu...

 

... se é que existe perdão

pra um errante como eu..