CORRIDA DE LEBRE

Lauro Antônio Corrêa Simões ( in memorian)

 

O rincho em tom de clarim.

Nesse tom característico

Dos baguais que se iniciam

Em seus primeiros galopes.

Têm o jeito vacilante

Do potro em primeira “pega”

Para a lida dos arreios.

No seu trotar cadenciado

Ritma as puas do ofício,

Mais cantoras nos careios

Que armas de sacrifício

De um domador que se preza

 

É assim que reprincipia

A cada manhã que nasce,

No chiar de uma cambona,

No rubro de um cerne em brasa

Ou, quem sabe, simplesmente

Nalgum “causo” de planura.

No gole da água pura

Que a pipa-d’água conserva

Gelada da brisa andeja

Que passeia na ramada.

 

No universo do campo

O homem faz seu caminho

Pois ninguém anda sozinho,

Mesmo que assim pense estar.

No grito de um quero-quero.

Rosendo, o índio campeiro

Que encilha um caborteiro

Sempre tem de companheiro

Jesus a lhe amadrinhar.

 

Há um sentido misterioso,

Pra não dizer abstrato

Em uma cerca-de-pedra

Que corta um capão-de-mato.

Talvez do fundo da História

Pelos saraus das estâncias

Ganharam a importância

Da misteriosa aparência,

Inexplicável à ciência

Porque lhe falta a razão

De se prender a um grilhão

Mais do que corpo, a consciência.

 

E a camperiar no seu potro

O Rosendo que prossegue

Vendo à macega uma lebre

De grandes olhos matreiros.

Pena que dois bons lebreiros,

Parceiros diariamente

Tenham ficado à corrente

Pelo nascer dos cordeiros.

 

Quem vive o mundo do campo

Aprende que à singeleza

É onde habita a beleza

Que alimenta o coração.

Na mais simples das figuras

Que inesperada acontece,

Uma visão resplandece

Qual aurora de verão

Na alma das criaturas.

 

Um lote de gafanhotos

Guasqueia às patas do potro

Que negaça mas, se ajeita

De maneira contrafeita

Querendo “tirá uma tóra”.

Pra quem conhece essa hora

A experiência é quem decide

Se haverá o revide,

Pois no momento mais conta

Que a doma já quase pronta

Não se perca por tão pouco,

No gesto meio de louco

De uma enganchada de esporas.

 

O rincho em tom de clarim

Parece um “naife” cortando.

No canhadão ecoando

Aquieta o capão-de-mato.

No meio do unhal-de-gato

Parece que o lebrão fala

E a sorrir vai dizendo:

- Cadê os lebreiros, Rosendo?

Neste varzedo de sala.

Bota a correr o teu potro!

Nem vais desatar o pala!

 

Mais um mês, quem sabe dois

Porque sei tua morada.

Carreira já confirmada

Pra depois da parição.

Petulância do lebrão

Desfazer dos seus lebreiros.

Diminuir o parelheiro

Que ele nunca viu correndo.

 

Não sei se sou eu que entendo

Pois se não diz, eu que penso

Que apesar todo silêncio

Sabemos que quem decide

Qual será a cor do lenço.

O julgamento, lhe falo

É do Senhor de a cavalo

Que amadrinha o Rosendo!