O CORVO

Luis Lopes de Souza

 

Asas negras preenchiam

o esboço vazio da tarde...

 

Misterioso e repudiado

o abutre carniceiro

deslizou no céu do Pago...

Asas grandes estaqueadas

como pairado no ar,

a fome urgindo no instinto

e a gula cega no olhar...

 

Em sua faina agourenta

buscou o farto banquete

que se estendia alo largo,

naquele campo cenário

de um combate malogrado.

 

O fartum repugnava

no repasto mormacento,

regalo para saciar

seu anseio famulento...

 

...o que chamavam bravura

na tal de revolução,

não passava de barbárie

dos homens do mesmo chão...

 

Chegou num vôo rasante

negaceando, vacilante...

mas decidido enfim

pousou o porte bizarro

no cobiçado festim.

 

Como quem busca detalhes

no caos macabro que via

o avejão relutava...

- Abria as asas, parava...

- Armava o vôo, voltava...

Como quem mesmo tentado

se sacrifica ao jejum

pra não cair num pecado...

 

Parecia renegar

sua natureza insaciável,

por pena da raça humana

ser tão fraca e miserável...

 

Eram homens!

Perfeição que Deus moldou

com o barro primordial,

pra ser de alma e matéria

sua imagem racional...

 

Sim, eram humanos!

O ser que domina o mundo

se decompondo qual bicho,

a ignorância estampada

com asqueroso capricho...!

 

Também chamados de, gente!

-Mas, piores que o corvo talvez-

Pois este nunca enfurece

e convive com sua espécie

numa instintiva harmonia,

não mata mesmo com fome

bem diferente do homem

que mata por covardia!

 

Não!

Não saciaria sua fome

naquele campo de guerra,

com os despojos da fúria

do pior animal da terra!

 

No mais nojento desprezo

galgou de novo o espaço

sumindo no céu do Pago...

Asas grandes estaqueadas

como pairado no ar

a fome urgindo no instinto

e a gula cega no olhar!!