ODE ÀS MÃOS DO BEM

Vaine Darde

 

Não, não invejo os pássaros...

Pois só tem asas quem não tem mãos.

E foi pela vocação das mãos

Que construímos caravelas,

E nos jogamos aos mares

Pra transpor os continentes,

E nos tornamos Ícaros insones

Pra voar entre as estrelas.

 

Foi pelo auxílio das mãos

Que saímos da treva das cavernas

Para a luz da sabedoria,

Que falquejamos as dificuldades

Da pobre condição humana

Para o domínio dos objetos

E conquistamos os mares, os ares

E onde nossos avós plantaram casebres

Semeamos edifícios.

 

A mesma mão que alcança o mate:

Tece o pala, trança loncas,

Toca acordes, lança o laço!

E quando os lábios imprimem

A música do verbo,

Aí, sim, as mãos são asas...

Um par de asas inquietas

Dialogando com as palavras.

 

E como tudo, entre o céu e a terra,

Há mãos do bem e mãos do mal:

As que se unem pela vida

E as que se armam para a morte,

As que afagam e as que agridem,

As que condenam e as que perdoam,

Mãos que curam e mãos que matam.

 

Mas as mãos que me fascinam

São aquelas mais humildes,

As aprendizes do oficio da semente,

Que fecundam esperança

Com a dádiva do grão.

Incansáveis mãos, mágicas mãos

Que transformam trigo em pão

E se ferem pelas uvas

Para a comunhão do vinho.

 

As mãos que me encantam

São as mãos que salvam vidas,

Que exercem dons divinos

Num labor angelical:

Mãos que curam, que acolhem.

Que orientam e protegem,

Que se doam pelo outro

Em inúmeros ofícios

De sublime vocação.

 

As mesmas mãos que firmam tentos

Pra que o homem se imponha

Sobre a força do animal,

São as mãos que acariciam

E andejam com ternura

Quando a pele veste céu...

A mão que marca a fogo

Pode ser também a mesma

Que oferta a rosa rubra.

 

Há mãos que imitam Deus

Pra transpor a realidade

Ao criar o inexistente

Quando a arte é religião,

E há mãos que se dedicam

A encantar a solidão

Ao semear vale e planície,

Desde o rio ao horizonte,

Povoando o ermo extenso

Com a dança das espigas.

 

Há mãos que se embriagam

No bailado das adagas

Nesse bárbaro ritual

Que ostenta armas brancas!

Mas há mãos que erguem taças

Pelo amor ou pela paz,

Ou nos templos, nos altares,

Quando o vinho é consagrado

No mais belo dos mistérios

No esplendor da liturgia.

 

Se foi pela razão que nos tornamos

Absolutos sobre a terra,

Foi pelas mãos que nos fizemos

Artífices de todas as conquistas,

Dominantes de nosso tempo,

Audazes e capazes de todas as ações:

Mover rios, remover montanhas,

Redescobrir a vida, reinventar a criação,

Refazer a luz e pisar na lua.

 

Não vou cantar às mãos do mal,

As que mutilam e destroem,

As que assinam e assassinam

Pelo mau uso do poder.

Essas não me interessam por seus atos

Pois são mãos que profanam e

arrebatam

A vida, o sonho, o pão.

Glória, sim, às mãos do bem,

Às calejadas mãos de ofícios nobres,

Mãos que plantam esperança

Pra colher searas plenas.

 

As mãos... as mesmas mãos...

As mãos que nos trazem à luz

São as mãos que nos sepultam.

Mãos que embalam o berço

No materno apogeu...

E, postas, unidas, entrelaçadas,

Ou dedilhando o terço

Unem o humano ao divino

Quando o homem, de joelhos,

Cruza as mãos perante Deus!