PALANQUE

Cristiano Ferreira Pereira

 

Palanque!...

A fibra e o viço da madeira...

Contendo a força bruta

Que lhe tironeia.

Palanque...

A rigidez... a retidão...

A alterar destinos... temperamentos...

A sujeitar os ímpetos

E registrar lições... com as marcas do tempo.

 

Talvez...

Quem retrate esse ente campechano,

Baseado apenas na imobilidade “aparente”,

Não o fite com os olhos de ver além...

De olhar para trás...

Estradear no tempo...

Este... menor que o merecido... .

...Maior que o aparente.

 

Assim...

Não te verá: Palanque!...

Com teus galhos de Guajuvira,

Balançando ao vento...

Para a roda constante do chimarrão

...Junto a ti.

 

Agregavas a teu redor...

Vidas tantas... que ganhavas gestos...

Histórias, vozes... e expressões;

Somavas amigos a teus fins-de-tarde...

E ao canto contumaz dos pássaros.

E a força que se renovava...

Com as ervas do chimarrão - seiva bugra -

Entre os palheiros, os causos... os recitados...

E a chiadeira de um radinho insistente...

Por conta de algum “aviso”.

 

E pros pequeninos...

Quantos sonos tranqüilos

Velastes, serenamente... à tua sombra;

Povoando os sonhos com tua imagem

...Imponente e acolhedora;

Cantando ventos entre teus galhos...

Cantigas de ninar e... de ronda,

Pra bonecas de pano... ou tropas de osso.

 

 

 

E nas “ingratas” e temporais,

Fostes porto-seguro...

Abrigo resistente e firme;

Rígido pra não tombar...

Mas... móbil o suficiente para acolher...

Os que a ti recorriam.

 

Ah, senhores!...

Só não o notou

Quem não fez por onde!...

 

Personagem marcante do dia-a-dia,

Bombeando longe...

...Até onde a vista alcança,

Sendo testemunha e quartel...

General imponente sobre a coxilha

E parceiro sempre pronto...

Antes de qualquer pegada ou...

Num matear de mano...

Naquelas horas em que a coisa enfeia

E se campeia guarida...

Ao invés de olhares recriminantes.

 

Mas...

Quando o destino marca na paleta...

Não há torena que sujeite o golpe...

E... num sofrenaço...

A jornada muda!...

 

Calam os cantos ao derredor...

Os gestos mudam...

Se extinguem.

No costado... não rodam mais as cuias...

Surgem ponto final...

Interrogações...

E... um recomeço!

 

Nova fase...

 

Agora... sim!...

É um palanque forte,

Tironeando potros

Pras lições das domas;

Mostrando aos queixudos a moral dos campos...

...Contendo ímpetos,

No teu exemplo ímpar

De agüentar tirões!

 

A tua volta...

Sentam, se alçam e se entregam...

À ação das lidas...

Até os mais pavenas e brutos!...

 

 

Tua seiva é outra hoje...

Vem do suor dos que te cercam...

E das chuvas mansas... de lavar a alma.

 

Ainda é companheiraço

Dos brinquedos da gurizada...

Quando a ti se achegam os laços

De algum “bracito” treinando... 

Ou para ti correm

As pegadas pequeninas...

Brincando de se esconder...

Ou... no trato de algum cavalo-de-pau...

...Que sempre precede aos petiços.

 

Ah! Amigo velho!...

Ao te ver bombeando o pampa

E a teu horizonte largo,

...Palanqueando a tua carga...

...O tempo pára!...

Já não contam as horas desse tempo...

E não cantam... as rosetas das minhas esporas...

São meus olhos que me cabresteiam...

E me prendem a tua imagem...

E eu... me entrego ao tirão maior...

Este de “quebrar o queixo” da consciência ...

...Topo de frente... com a Lei da Vida!

 

Ah! Senhores!...

Surgimos todos pra somar no mundo...

Frágeis e sujeitos aos tombos...

Das forças todas que nos cercam...

Ganhamos o viço...

Cerne forte...

Ramificações...

Agregamos vozes...

...E amigos.

Crescemos sendo cuidados e... depois

...Somos fortins e aconchego;

...Acalanto e... tironaço!

 

E... mesmo com o cerne forte

Tombamos com a ação dos anos...

Mas... ficamos ainda...

Como Palanques vigorosos

Cravados nas coxilhas, nos campos

E... peito adentro dos homens;

A alinhar destinos e temperamentos...

...Com cada lição deixada... a apontar sentidos...

...E ser contos pras bonecas-de-pano...

...E aboios pras tropas-de-osso...

...E dar viço e força... de pais e avós...

...Pra eterna criança que há em nós!...