POR ESTA LUZ!...

Guido Moraes (in memorian)

 

Tanto berrou, sapateou, implorou

e afinal chorou

que Fabiano ficou de rédeas no chão...

Estranhando a demora da lenha,

pela janela do oitão

entreviu Chiquinho sentado no picador,

soluçando de fazer lama...

- Ligeiro, guri,

que tua mala de garupa já tá pronta!

Só falta emalá o ponchinho...

Descrente e ansioso,

guri, graveta e lenha,

mais o cachorro Bilu

invadira rancho e alma do Posteiro.

 

Na jantinha arroz-com-couve

e um feijãozito com charque,

Fabiano sentenciou:

 

“Tropear neste janeiro ardente

  não é comer biscoito com apojo...

  São trezentos bois de vário pêlo

  e várias cruzas,

  cruzando gados e campos alheios.

  Precisa tino e traquejo,

  destreza e firmeza nos arreios.

 Água e lenha no fogão

 é serviço pra esse peão...”

- rematou apontando seu Chiquinho.

 

Cinco dias de cansaço e poeira.

Seis noites sob o céu que era uma joeira.

-Hoje a ronda é contigo, guri bueno!

-Varo a noite de olho aceso, Tio Pedroso!

-Eta guri tigre! Gente brava..!

 

Fabiano sorria para dentro,

orgulhoso,

sabendo que o guri não se escalava.

 

Mas... na última porteira,

a tronqueira encimada lindamente

pelo ninho-berçário da forneira.

O casalzinho barroso deu rasantes,

gritando, azucrinando, protestando,

quase furando a orelha do intruso...

(Deixa estar – grunhiu Chiquito –

  na volta vou calar esse gritedo...)

Entregue o gado, voltavam satisfeitos,

dever cumprido, a plata na guiaca,

repartida pelo capataz de tropa.

Bem antes da porteira dos barreiros,

Chiquito esporeou a rosilho

e esperou, compondo arreios e redemoinhando,

que passassem todos os tropeiros...

Desaparecendo estes no lançante,

de pé nos estribos, pra crescer,

enfiou o cabo do relho com fiel e tudo

na fresta do ranchinho topetudo

e puft..! Prole, penas,

musquinhos, lama dura,

amontoaram- se em estranha sepultura...

 

“FARTO E VARIADO MUNÍCIO

NO BOLICHO DO APPARÍCIO!

gritaram , chegando à pulperia...

Branquinha correndo farta,

gasosa para o Chiquito

conforme a reza da mãe:

“Ave, Maria cheia de graça,

guri pequeno não toma cachaça!

 

Mala cheia, além do trivial:

salame, sardinha, rapadura,

caramelos pro menino,

um fumo de Sobradinha

e caninha daquela pura...

 

Repechando para o Posto, vendo as plantas,

Só o umbu.... e as laranjeiras...

esporeou.....galopeou...

(E A FUMAÇA QUE UM PASSANTE VIU NO RANCHO?)

Só a pereiras....e as figueiras.... SÓ???

...E AS CINZAS.... E o fogão torrado

e a cama velha da finada retorcida...Chiquiiiiito!

 

Antes do sono inconciliável, sob o umbu,

perguntou por perguntar:

- Tu não buliu com o ninho dos bichinhos?

Na porteira aquela?

- POR ESTA LUZ, PAI!

 

Fabiano, tirando o chapéu dos olhos,

não viu Lua....nem Estrela...ou Vagalume.