PAJONAL

Autor: Sergio Sodré Pereira

 


Foram vinte dias de chuva
de encharcar as garroneiras;

A silhueta estancieira
dia após dias encruada
mal se via as invernadas...
mal se via o fio dos dias...
tudo era nostalgia...
...toda lida era apertada.

Por debaixo do capão
o rio surgiu imponente
levando tudo a frente
foi cobrindo o pastiçal.
Num jeitão de General
transpôs todas trincheiras,
estendeu suas fronteiras
e engoliu o pajonal.

 

Da janela... da janela eu vi a cena
de bárbara submissão:
a aguada da criação
sucumbir a uma crescente;
depois que se fez ausente
senti a estranha mágoa:
água afogada na água
como se fosse um da gente.

De súbito, esqueci do mate;
ao me topar com a verdade
daquela calamidade
que jamais vira igual
e percebi, afinal,
entre o cinza do campo
que a alma de alguns tantos
é igual a um pajonal:

 

Existem almas serenas
que dão sempre água boa
têm uma paz que encordoa
indiferente à estação
prateiam na escuridão
e remoçam outras vidas
-de maneira incontida

são boas de coração.

 

 

Há também as almas turvas
que não se conhece o fundo
andam a vagar no mundo
buscando razões de ser
não têm sonhos de estender
seus limites naturais
(ou sendo rasas demais
ninguém chega pra beber).

É preciso muito jeito
com a alma desconhecida
pode parecer florida

-nada aparenta de mal-
pouco demonstra afinal

com seus ares de descanso
(pode ser só um remanso,
também pode, tremendal)

 

Volto então ao “afogado
que morreu na própria calma;
feito ele, tantas almas
perecem  no mundo aberto.
Por terem medo do incerto
imaginam ter guarida
mas um dia o rio da vida
leva o que estava por perto.

E as vezes este rio
passa sereno e com jeito
estende aos poucos seu leito
nos rumos que assim galgou
e alma que ali ficou
não se engana com miragens
-entende as novas paisagens
que o rio da vida formou.

Talvez um dia - Deus sabe!

o rio vem em correnteza
com destruição e tristeza
deixando tudo às avessas
não há nada que o impessa
e a alma que era tranqüila
frente ao destino que afunila
nem sabe se recomeça.

...hoje o rio voltou à margem
se estenderam os rebanhos


 
 


no começo foi estranho

tudo que deixou a enchente,
mas o tempo anda pra frente
e todo ciclo seguiu,
até o banhado ressurgiu,
porém, com alma diferente.