REMINISCÊNCIAS DO ANDEJO QUE NÃO VOLTOU

Luis Lopes de Souza


Ali daquela porteira,

que é um marco redivivo

roído pela intempérie

eu vi o andejo partir.

A promessa de retorno

e uma razão pela frente...

Mas quem sofre na partida

faz um rumo só de ida

pra não sofrer novamente...

 

- Não voltou...!!

 

Ficou a vaga lembrança

do vulto altivo de um guapo

herói fugaz de minha infância.

 

Era um senhor dos caminhos!

um dia chegou de longe,

ninguém sabia sua história

nem sequer de onde vinha.

 

O perfil de uma princesa

o cativou para um pouso...

A magia do sorriso...

O encanto do olhar...

Mistério de benquerença

da moura da salamanca

enfeitiçando a querência...

 

As amarras desses braços

num tempo breve e escasso

o prenderam por aqui.

- Desse romance ao acaso

foi que cheguei por aqui -

Que um andejo não regressa

fui aprendendo sem pressa

mas só agora entendi...

 

Por isso quando campeio

os motivos evidentes

entendo sim seus anseios...

 

Que rumo a estrada lhe dera?

Porque esqueceu a promessa?

Errou o caminho de volta

ou não quis mesmo voltar?

Talvez pra evitar a dor

de uma nova despedida

preferiu não retornar.

... certamente é inexplicável

a aventura de andar...

 

Talvez tenha se enfurnado

pelo portal do Jarau,

não tendo a mesma sorte

do velho e lendário Blau,

extraviou-se lá por dentro

atrás de alguma riqueza

ou conquistou os carinhos

da encantada princesa.

 

... talvez seja um velho cerno

tapejara centenário

esquecido na Pampa...

... talvez ande por aí

reencarnado na estampa

de algum campeiro guri...

... talvez seja a cruz perdida

em uma estrada distante,

altar pagão legendário

no itinerário de andantes...

 

... a porteira ainda existe,

como um marco redivivo

roído pela intempérie

mas que teimosa persiste

escancarada no tempo,

ainda esperando a volta.

... as magoas se dispersaram

no campo do esquecimento...

 

Por isso quando campeio

os motivos evidentes

entendo sim seus anseios...

 

Em cada estranho que chega...

Em cada vago que passa...

Em cada estrada mui longe

descambando uma coxilha

eu vejo o andejo voltando

mesmo ao finzito da vida...

 

Seria muito mais lindo

ver um andejo retornando

do que ver um andejo, partindo...!