Uma volta...

Autor: Gujo Teixeira

 

 

 


 

Encilho e aperto a cincha

não muito, que a volta é curta...

Meu baio sabe da lida mais da metade que sei

foi no lombo desse pingo, que gaúcho me criei !

 

O coração num galope quase me sai pela boca

recorre antes de mim a uma invernada distante

sabe estender o olhar num atropelo de ida

conhece pouco da lida, mas de mim sabe bastante...

 

Na porteira da Divisa, um campo bem  lá do fundo

que separa os nossos pagos com o outro resto do mundo

a vista é de ver de longe, de apeiar e ver melhor.

Ficar por tempos cuidando a imensidão estendida

e poder pensar no que tem de bom pra nos dar a vida...

 

Ás vezes o pensamento vai mais longe do que pode

volta no tempo e se perde em tanta coisa bonita

carreiras, bailes de rancho, domingos de fim de mês

quando estendia este baio na estrada de São Martin

e me encontrava pra um mate, com a outra parte de mim...

 

Ás vezes o pensamento vai além do nosso tempo

e projeta algum futuro, melhor ou talvez  igual,

um rancho de alma e morada, previsões de boas vindas:

um sorriso, um mate novo, e o mesmo olhar da linda!

 

Ah ! Pensamento maleva, sem querer busca um sentido

que talvez por esquecido tenha ficado na espera

pra quando a alma da gente se perder, sem ter razão

firmar bem a espora grande  no macio do coração.

 

E como dói um pensamento desmedido...

 

Daí eu volto aos arreios e um pouco mais pro que vejo:

campo, invernada povoada, coisas comuns por aqui...

Numa canhada bem perto uma vaca pampa mocha

reclama ao vento do sul por ter perdido o terneiro.

Mas logo de entre as macegas um pampinha mascarado

ainda meio aos tropeços responde por ser chamado.

 

Meu olhar se fixa no horizonte do poente...

onde, a cavalhada por conta, se vai num galope de alvoroço

são mais ou menos uns trinta, entre mansos e alguns potros

disparando uns dos outros ou talvez do próprio vento.

 

Chegam perto num instante e ficam  a olhar pra mim

depois no mesmo galope, disparam sem rumo certo.

Cena comum dos libertos que não conheceram freio

e espalham o gado manso no “parador” do rodeio.

 

Meu baio segue ao largo cruzando o campo imenso

e eu assovio com o vento uma milonga das minhas...

cantando um verso que lembro com apenas “quatro linhas”

mas que carrega a verdade de tudo o que sinto e penso...

 

...É coisa de encher os olhos

e um gosto de querer bem

sentir o vento no rosto

e o gosto que a vida tem...

 

Dou de rédeas!

Parece que até as casas, é um tanto de meia légua,

as imagens que recorri cruzam como um raio

quando por conta deixei do tranco do velho baio

E a espora do pensamento, cutuca e me responde

quando por ligeira se solta, mostrando que fui “mui” longe,

pra quem ia só dar uma volta.