VELHAS TAPERAS

Autor: Joseti Gomes

 


Abro a porteira dos olhos

prum sonho bom que vivi...

 

Guardado em meio ao silêncio

dos que resistem à estrada,

um vulto gris soberano

guarda mistérios na alma...

 

Entre a candura da carne

e o quadro de uma tapera,

com sorrisos de janelas,

porta aberta, escancarada,

com cinco degraus na escada

apontando a direção,

a estranheza da casa

pois, mais parecia um galpão...

 

Do mundo em que eu viera

pouco restara pra mim...

A estrada seguia livre,

e aquele lugar perdido

que eu descobria escondido

em meio ao mato fechado,

me engolia nas urgências

das necessidades povoeiras,

que maneiam tanta gente

pra sugar os poucos cobres

que se escasseiam nos dias,

que vão deitar-se silentes

co’s sonhos que a gente tem...

 

Não conhecia ninguém...

O manto negro da noite

deitou e eu despertei...

Lá fora sombras bailavam,

muitas vozes conversavam

e as paredes com frestas,

revelavam uma festa

com o cochicho dos pombos

aninhados no porão...

Ao lado, na estrebaria,

mugidos quase em sussurro

segredavam tanta coisa

que eu ainda não sabia...

 

O aroma do café preto,

encobria o cheiro forte

que vinha do movimento

de quem dividia a casa,

e amanhecia inocente

disfarçando envolvimento

com os segredos da noite...

Cada um com seu mister...

O sol teimando em aparecer,

e o radinho de pilha

cantando a mesma canção

roncando junto co’a cuia...

 

O pai, e seus pensamentos...

A mãe por certo entendia

que ali, naquele galpão,

os dias seriam poucos...

A casa nova viria

trazendo a tal alegria

pra enfeitar o seu olhar...

Enquanto esse lar não vinha

meu galpão guardava história.

Conhecia todos meus medos,

segredava meus segredos

e toda a noite voltava

a revelar-se pra mim...

 

Rangidos fortes dos ventos,

fantasmas de muito longe,

todos trazendo nas malas

os fardos de tantas penas...

Todos com seus dilemas...

Fui aprendendo a ouvir...

Suava frio, eu confesso...

Preferia os ventos leves

que só traziam canções,

das fadas de sonhos bons,

dessas de contos de amor...

Mas tudo ali era surpresa.

Se o pão era escasso na mesa

o amor sobrava no prato...

 

Sem registros nos retratos...

Tua alma tinha nos braços

o calor que eu, sem saber,

precisei pra conhecer

as tantas noites geladas,

que trincavam madrugadas

endurecendo a cantiga

das cigarras que partiam

pra só voltar no verão...

Meu olhar não conhecia

dessa vida em movimento

que muda nas estações,

que tira a cor e floresce,

que esfria e depois aquece,

que clareia a noite escura

e escurece o sol dos dias...

 

Obedeci os mandados...

Saía pisando geada

e voltava pela estrada

cantando igual sabiá...

A escola modela o homem,

vai aparando as arestas,

e à noite, por entre as frestas,

meu mundo era só meu...

Ninguém nunca conheceu

das histórias que eu vivi...

 

Fim de semana chegava

com lidas pouco comuns:

fazer a própria vassoura;

varrer o terreiro grande;

trazer água da vertente;

buscar a lenha no mato;

comer pitanga e goiaba;

e sonhar com um futuro

que traria tantos muros

embretando a liberdade

que nunca mais eu veria.

 

E o tempo passou pra mim...

A mãe ganhou casa nova,

e a estrada fez nuvem alta

apagando o meu adeus...

E todos os sonhos meus

não ouviam sussurros,

e os mistérios da noite

não tinham mais o encanto

da espera em alvoroço

de um mundo de assombração...

 

Restou somente a saudade

do vulto gris soberano

deitado em leito de adeus...

Mas quando se abrem sulcos

nos campos largos da alma,

não há tempo que derrube

o corpo firme de um homem...

Não há mais vida em teu ventre.

Nada mais é como era!

No galpão que foi meu lar,

mistérios falam nas sombras,

e alguém espia assombrado

pelas frestas do passado

que habitam velhas taperas!