Pajada no Fim do Mundo

Vaine Darde

 


Se a torre Eifel tombar

num terremoto em Paris

ou os sertões dos brasis

se transformarem em mar.

Se o céu se derramar

nas águas do Ibicuí

e inundar o Itaqui

de São Borja a Uruguaiana

até molhar o Atacama:

eu vou me abrigar em ti.

 

Se Machu Picchu afundar

num vulcão da cordilheira

e, de Torres a Cidreira,

todo mapa se molhar,

quando a costa naufragar

nessa tal de tsunami

sem ter ninguém que reclame

o território do asfalto,

eu me vou pro Plano Alto

a chamar pelo teu nome...

 

Quando o clima virar peste

e derreter as geleiras

levando na corredeira

os mosteiros do Tibet

e se o pico do Everest

for uma ilha no espaço,

se o Aconcágua não der passo

mergulhado no deflúvio,

eu vou remar no dilúvio

até chegar  nos teus braços.

 

Se uma enorme pororoca

desaguar em Nova Iorque

e a milonga virar rock

nos confins da Bossoroca,

Se, do centro até a biboca,

o mato tomar o solo

até tapar os meus olhos

numa invasão de guanxuma,

por mim, que o mundo se suma

Se eu for morar no teu colo...

 

Se um meteoro crinudo

se bolear lá pelo Chaco

cavando uma baita buraco

que ninguém encontre o fundo,

eu juro que não me mudo

de planeta ou de rincão

e, mesmo perdendo o chão,

no meio do alvoroço,

eu desço por esse poço

pra te encontrar no Japão.

 

Se a lua mudar o rumo

e se planchar no Alegrete

pechando o pampa de frente

pra Terra perder o prumo,

chinoca, eu não me sumo

pois a minha vida é tua,

não sou de fugir da pua

e se der esse desastre,

eu vou armar nosso catre

no melhor quarto de lua.

 

Mesmo que o sol se apague

num conflito pavoroso

e a noite peça pouso

na escuridão que se alargue,

que importa que a treva vague

entre e o infinito e o solo

se espalhando pelos pólos

nesse bárbaro apagão,

se eu tenho um fogo de chão

e as estrelas dos teus olhos.

 

Se o mar invadir o pampa

numa cheia do Ibicuí

e se espalhar por aí

mudando a estampa do mapa,

ah, eu já saio no tapa

braceando pela enchente

até dar pé, lá na frente,

num pico da cordilheira

onde me esperes faceira

com o amor sobrevivente.

 

Se ao lavrar estes confins

eu, um dia, pague o preço

da terra virar do avesso

e desabar sobre mim,

não me entrego mesmo assim

para a força desse evento,

que no braço me sustento

em se tratando de arado

e saio lá do outro lado

lavrando a terra por dentro.

 

Pouco importa cataclismo

pra um gaúcho apaixonado,

todo taura é preparado

de telúrico heroísmo

nesse cerne do atavismo

que forja o brio do macho

de nunca apagar o facho

pelo bem de uma estima

e dar a volta por cima

se o mundo acabar por baixo.