RECANTO DO SOL NASCENTE

Jorge Luiz da Rosa Chaves


 


Naquela tarde medonha

O minuano me “assoprou”...

 

Que ali naquela coxilha

Pouco ou nada antes havia.

...Além de campo e uma frente aberta

Pra quem ousasse chegar,

Com alguns sonhos pra plantar

Naquela terra bravia.

 

Santa porteira cravada

No coração do Ibicuí

...Um gaúcho fincou o garrão.

- Não há fronteiras no chão

Pra quem tem mãos e coragem!

 

Ao vislumbrar a paisagem

Acreditei no que ouvi,

Afinal... o vento andejo

- Ao contrário deste estranho -

Sempre cruzou por ali.

 

Matreiro cá de outras bandas

Me aproximei devagar,

Desconfiado... meio incerto.

Uma estrada conduzia

Pra frente calma da estância,

Que de lá no topo eu já via.

 

- Eu lhe conto amigo velho...

Que me costeava num trote

Uma seca mui cruel

- Mais amarga do que fel

Que de todos nós judia.

...Gente e bicho... tudo igual!

 

Na goela seca me ardia

Um sentimento animal.

...Farejando pasto verde

Numa sede de vertente

Que esgotava manancial.

 

Fartei meus olhos de pasto

- Que só o meu pingo imagina -

Ao ver aquela canhada

Deu-lhe ganas de pastar.

..Feito cabelo de china

Dava “inté” pra se trançar.

 

Me acheguei num – buenas tardes!

Pra sombra do parapeito...

E a voz mansa do caseiro,

Feito um eco... a retumbar...

- Vá chegando companheiro!

...Num galpão de boca larga

- Sorrindo de porta aberta -

Como hoje, poucos... na certa,

Em pago “alleno” se vê.

 

Resfolegando mormaço,

Proseando... escutei em volta

Na vastidão do arvoredo...

- Abençoados passarinhos -

Na beleza do lugar.

 

Pensei: ...aqui tem o dedo

De quem renasce ao plantar

Sorrindo com a natureza

Que Deus fez pra gente amar.

 

Senti o aroma dos figos,

Das peras – das laranjeiras,

Bergamoteiras, caquis...

O doce mel nas colméias

...Melancias pros guris.

 

Três coqueiros – três amigos -

Mirando lá no horizonte

...As nuvens sombreando os montes

Bordados no campo seco.

 

Angicos aquerenciados

Na paz serena das brisas.

Dois ipês cheios de amores

Pra refrescar tardes quentes

Na festa dos beija-flores.

 

Égua buena no sogueiro,

O gado manso “resmoendo”...

Tronco, cercado e curral.

Pra garantir a fartura

Água boa e milharal.

 

Mateando com o bom caseiro,

Pensei – talvez em voz alta -

- Devem ter sovado anos

Numa saga de labutas...

Pra fazer tudo isto aqui!

 

...E o vento, sempre rondando,

Me cochicha de soslaio...

- As sombras falam por ti!