ROMANCE DE PAMPA E SOL


Adão Quevedo

 


Despacito, o sol desnudava à pampa

com carícias mansas e luzidias

que pouco a pouco se tornavam amplas,

lhe trazendo matizes de alegria,

iluminando os campos deste amor

quando noite se transformava em dia.

 

O sol que suspirava em seu rubor

que à paixão denunciava a cada afago

aos poucos revelava a pampa em flor,

e a noite fria com seu poncho amargo

ia dando lugar à pampa desnuda,

plena de todos os amores do pago.

 

À luz do amor, o iluminado muda

sua tez que agora resplandece, brilha,

quando antes era opaca e sisuda

como as flores, que na noite das trilhas

se ocultam da visão do caminhante,

mas que ao sol, lhe acenam das coxilhas.

 

Assim, a pampa, em pele verdejante,

exalava dos poros seu perfume

enquanto o sol, mais e mais radiante,

estendia à sua amada tal lume

que, ao esmaecerem, as demais plagas

deste romance sentiam ciúme.

 

E o sol percorria as planuras largas,

se mirava vaidoso nos açudes,

roubava beijos da água das sangas,

e a pampa encantava aos homens mais rudes,

versejando amor em suave canção

soprada ao vento, que no céu se funde:

 

terra e céu, pampa e sol, agora são,

ao terno amanhecer que se faz dia,

um só ser, unido pela paixão;

e o romance ao longo das horas ia,

e o casal apaixonado se amava,

despercebido que o tempo esvaía...

 

Mas, na medida em que o tempo passava

– se ia sorrateiro, sem alarde –,

o romance ao final se aproximava,

porque enquanto o sol de amores arde,

esquece que seu fogo depois apaga

com o frio que impõe o cair da tarde.

 

O mesmo vento que o amor propagava,

agora sopra avesso a tal romance,

contentando a inveja das demais plagas;

e a pampa de luz, do amor que amanhece,

desposada pelo amante do céu,

se recolhe escura quando anoitece...

 

A noite torna a vesti-la, em negro véu,

cobrindo a vastidão ora ensolarada

que agora, abatida, o lume perdeu;

o sol gaudério pega o rumo da estrada,

deixando pra trás a diurna amante

– em lágrimas de estrelas derramada –.

 

Sangrado, o amor anuncia o poente

de um romance que fora ardente outrora,

descendo melancólico o horizonte.

 

Mas este rubor que se vê agora,

do amor fora atestado no amanhecer

e prenuncia que amanhã a aurora

fará, talvez, o romance renascer

quando o lume do sol lumiar a pampa

e à sua pele carícias tecer,

percorrendo a geografia do campo,

sussurrando brisas ao pé do ouvido

enquanto aos poucos o dia se acampa.

 

E de terra e céu o amor desmedido,

que morre e renasce a cada arrebol,

assim, jamais quedará em olvido,

pois a cada nova manhã no sul

reacenderá a chama do amor

num novo romance entre a pampa e o sol!