Tempo e Saudade


Jeferson Monteiro

 


Busco,entre os acordes do pinho,
Dar adeus à tristeza e a todas as incertezas
Que em meu peito fizeram ninho.

Busco entender a vida,

Passando tempo e saudade...

 

Encilhei flete,calcei esporas,
Mirei estradas,e parti...
Sem rumo,sem medo!
Poncho estendido sobre o lombo do baio
Sombreiro largo a cobrir melenas
E um trote manso a seguir luzeiros
De sóis,luas e candeeiros
Que em noites sem brilho

Clareava as sangas estreitas

De onde uma vez ou outra

Tirava pra o meu sustento

 

O minuano do agosto sopra forte...

E a alma triste de um campeiro

Segue caminhos sem fim...

 

No rancho onde fiz morada

Deixei os lábios da amada

E o riso largo do piá,

Que derramou lágrimas tristes

Quando parti,querendo ao mundo me provar,

Provar que é mais forte o pampeano,

Que não se entrega aos lamentos,

Não froxa “ rédeas,nem tentos,

Pra de amores cuidar.

 

 Entre um trago e outro,

Vou remoendo lembranças,que deixei pra traz...

Do amor deixado no catre

Que hoje,segue perdido

Na ausência dos meus mates

Que sorvo solito a mirar estrelas

Sob o sereno das madrugadas.

 

Num pealo certeiro

A solidão,sem pena,

Botou buçais em meu peito,

O coração,se um dia teve asas,

Foram cortadas pelo fio da espada

Carregada pelo tempo,

E os sonhos,se foram a-lo-léu,

Tornando gris,um mundo que um dia teve cor.

 

Os calos nas mãos...

O corpo judiado...           

Marcas da lida,

De tantos e tantos potros quebrados

De mangueiras e galpões levantados

Por este homem,hoje destinado

A andar,andar e andar...

 

Não sei se o pano da bombacha,

Aguentará muito tempo,

Não sei se o poncho vestido,

Aguentará as geadas,

Não sei de mim,

Não sei de nada,

Só sinto as lágrimas derramadas

E as lembranças,

Emolduradas em meu peito,

Se botarem a corcovear.

 

As milongas que dedilho

Já não podem me acalmar,

Os dedos enrrigecidos

Muito frio,estremecido

Não consigo mais tocar...

 

A visão fica turva...

O ar escasso...

Sinto falta dos abraços

E do riso do meu piá,

Do doce beijo moreno

Da simetria de um corpo pequeno,

Que eternamente quis me amar.

 

Bombachas e palas brancos

Se aproximam de mim...

Dois seres bem pilchados,

Asas batendo,

E exalando aroma,de puro alecrim...


Soltaram-se as amarras

 

Que aprisionavam meu peito...

O baio,em disparada,vai percorrer sesmarias

Meu corpo judiado,

Por entre o verde dos campos,

Fará brotar maçanilhas,

Fará cantar tentilhões,

Que revoarão os galpões

Da minha antiga coxilha.

 

E aqui,dos confins do firmamento,

Vejo meu filho brincar...

Minha mulher plantando flores,

Chorando aos prantos,de amores

Dizendo...que vai me esperar.

 

Vou abrir novas estradas,

Entre a terra,e os céus...

E me fazer primavera,

Para tocar os seus rostos

Com perfume de azaléias,

Bordar no manto da noite,

A inicial dos seus nomes,

Provar que um homem chora,
Que um homem ama,

Mesmo distante dos seus,

Pois vou guiando seus passos,

Seguindo de longe seus rastros,

Sentado a direita,de DEUS!